Uma fragorosa derrota do governo
A não-eleição do candidato petista à presidência da Câmara Federal e a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) pela vasta diferença de 300 a 195 votos foi uma fragorosa derrota do Governo Lula. Que não quer admitir isso, preferindo culpar o voto secreto e setores insatisfeitos com o governo dentro do PMDB, do PP e do PTB, e declarar que houve traição da base governista, que soma 75% do total de deputados. O presidente, que visitava a Guiana na hora de proclamação do resultado, também não se deu por vencido e lançou o desgaste sofrido à conta do seu partido, afirmando que ''o governo não disputou a eleição''. O que é uma inverdade, porque Lula convocou seus mais destacados ministros para fazer pressão sobre o Poder Legislativo, numa declarada ingerência. A derrota não é apenas do governo como um todo, mas em particular também dos superministros (quanto ao mando e não necessariamente quanto à qualidade) Antonio Palocci e José Dirceu, que apareceram ostensivamente no retrato, em campanha. A Câmara demonstrou sua autonomia e reagiu com altivez, descontente com a forma como o governo agiu em todo o processo. Com o episódio, Lula perde posição e a Nação ganha, porque a Câmara deverá agir com mais independência, diferente do que seria se o eleito fosse o petista de preferência do Palácio do Planalto, Luiz Eduardo Greenhalgh. Severino, pernambucano como Lula, formando a base governamental e detentor de bom trânsito dentro da Câmara, disse que não criará impedimentos ''para o conterrâneo'', e terá dois anos para mostrar seu desempenho, justamente os anos que restam do mandato presidencial petista. São os líderes das bancadas que decidem votos e não o presidente da Câmara, mas ele será o interlocutor entre essas lideranças e o presidente da República. O veterano parlamentar, que sempre desejou a função que ora assume, sabe fazer isso bem. O Governo Lula demonstrou inabilidade ao fazer um diagnóstico equivocado do processo eleitoral, evidenciando que não tem líderes habilidosos em seus quadros para negociar com maestria em ocasiões como esta e sobretudo com discrição, que não caracterize a ingerência demonstrada. Muito pior, o presidente que chegou ao poder em meio a tanta esperança nacional revelou frouxidão e incapacidade de levar adiante projetos tão acalentados, também não conseguindo cercar-se de ministros capazes para realizar o governo maiúsculo que milhões de brasileiros esperavam, ante tão majestosos acenos. Até aqui foram dois anos praticamente perdidos.





