Uma floresta verde no deserto - Gaudêncio Torquato
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de janeiro de 1999
Gaudêncio Torquato 
Onde o Brasil avançou e onde ficou parado ou recuou? Esta é uma das recorrentes perguntas nesse momento de balanço. Começar um novo ciclo requer reflexão sobre o que se fez e o que deixou de se fazer. Como 98 foi um ano eminentemente eleitoral e sombreado pela crise financeira internacional, pode-se concluir que esses dois eixos definiram os padrões nacionais. No campo econômico, a preocupação básica foi a de manter a estabilidade da moeda e a principal consequência foi sentida no aumento do desemprego e na contração da produção. No campo político, a onda eleitoral determinou um crescimento nas taxas de racionalidade, com elevação dos índices de conscientização e ética. A população selecionou melhor os representantes, mesmo que a renovação não tenha atingido patamares tão altos.
A compressão econômica alargou os espaços de contrariedade das classes médias. Os salários praticamente se mantiveram nos níveis antigos. A inflação não cresceu, mas alguns serviços tiveram preços bastante elevados, comprimindo programas de lazer e restringindo padrões de qualidade de vida. As classes médias se acostumaram ao Brasil do Real mas começam a se sentir sem fôlego para vôos mais altos. Tudo está contido, contado e regulado. O que mais impressiona, porém, no País, é a extensão dos territórios de miséria. Favelas, palafitas, conjuntos habitacionais de populações pobres, em quase todas as regiões do País, são infestados de doenças e as carências chocam os olhos. O necessário - a comida básica - está sendo provido pela moeda sem inflação, mas os programas de saúde governamentais não são capazes de atacar o grupo de doenças que corrói os corpos dos miseráveis.
O que choca, no País, ainda é a monumental diferença entre os níveis de vida das elites e os das classes marginalizadas. Programas de privatização colocam o país no altar elevado da globalização econômica e do modelo liberal. A tecnologia em áreas importantes - comunicações, estradas, informática, bancos - é de primeiro mundo. Mas os serviços fundamentais do Estado e programas sociais continuam precários. Basta olhar para a saúde (doente), a segurança (um caso de polícia), a educação (ainda precária e excludente) e a habitação (inadequada e insuficiente). A violência indiscriminada se espraia, adensando o medo e ampliando a malha intestina da corrupção nos aparelhos policiais.
Contrastando com esse sombrio cenário, descortina-se a esperança nos horizontes da conscientização política. Cidades e campo juntam-se na estratégia de formação de pressão sobre o sistema político. As exigências são maiores, mais objetivas e voltadas para defesa imediata de interesses grupais. O pragmatismo substitui a tendência à acomodação. O ato de participar, fazer, agir, toma o lugar da antiga passividade da sociedade. A pressão, agora, não é exclusiva dos setores médios. Desceu às massas. Os grupos se organizam, criam ambientes de ressonância, partem para movimentos de mobilização. A cabeça cívica cresce no meio da necessidade alimentar e do medo da violência. Esta é uma inquestionável melhoria no processo cultural e social. O brasileiro começa a se guiar pelo princípio da autogestão técnica, pelo qual define um fim, escolhe os meios e administra as formas de atingir metas e objetivos.
Em resumo: o Brasil cresceu, avançou no caminho dos sentimentos e comportamentos cívicos. A cidadania, nesse sentido, toma corpo. Eis aí o paradoxo nacional: a melhoria dos padrões cívicos num ambiente de muitas carências. Sabe-se que o cidadão perde autonomia, vontade, quando sujeito a intempéries. No nosso caso, até parece que a vontade emerge no calor das necessidades. Traços como esses assinalam o fortalecimento da nossa democracia representativa, com maior engajamento das massas. Isso é saudável e mostra que, no meio do deserto, há de florescer uma floresta viçosa com oxigênio para suprir os pulmões da Nação no novo milênio que se aproxima.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)


