Uma festa para os mortos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de outubro de 2001
Walmor Macarini 
Amanhã é o dia em que as pessoas vão aos cemitérios para reverenciar os mortos. Imaginam encontrar lá os seus antepassados, e no mais das vezes eles chegam, eis que a força dos sentimentos os atrai. Bom é orar por eles e liberá-los, sem ''puxá-los'' para perto com dor e sentimento de perda, porque isso os faz sofrer. Devemos imaginá-los sempre em ascensão, subindo para a plenitude da luz, e assim aqueles que estão em mais dificuldade reencontram o caminho e vão para os lugares que lhes proporcionem o atendimento de que necessitam.
Estão certos os que acham que não podemos nos comunicar com os mortos, simplesmente porque mortos não existem. Em verdade nos comunicamos com os vivos, e todos aqueles que ''se foram'' estão vivíssimos e em condições de nos ouvir e ser ouvidos. Algo natural como encontrar um amigo na rua e conversar com ele. Mas quem não crê, naturalmente fecha os acessos. É uma livre decisão.
Empregamos os termos morte e mortos porque a linguagem popular não tem outra forma de definir essa passagem de um plano para outro e de se referir aos que deixaram o corpo físico. Porém, nada morre e não se deve lamentar a morte, embora seja grande a dor da separação. A morte de que se fala é apenas um adormecer aqui e um acordar mais adiante.
Quando nossos filhos, parentes ou amigos, mudam-se para outra cidade ou para fora do País, também ficamos por longo tempo distante deles, mas nem por isso essa ausência nos deixa com a dor de uma perda. Podemos ir vê-los quando quisermos, nos comunicar pelo telefone, por correspondência, pela Internet. Com alguém que morre é a mesma coisa. A intercomunicação não é impossível.
Mas, comunicar-se, dirigir-lhes sentimentos de amor e carinho não é o mesmo que chorar a sua ausência e aprisioná-los em nossas dores, porque assim lhes faremos mal. A mãe que perde um filho jovem sofre muito, mas não deve prostrar-se ''trazendo-o'' de volta, pois ele se sentirá atraído a voltar e, se morreu de forma trágica, acabará sendo recolocado no palco que o fez desprender-se da vida terrena. Assim, interfere no livre-arbítrio dele e na sua natural tendência de subir para a luz e para o entendimento de sua nova condição.
Não há nada mais penoso que uma mãe, impregnada de ira e revolta, clamando por justiça contra o assassino do filho, porque ambos sofrem a mãe e o filho. É difícil perdoar, mas o desejo de punição e as manifestações públicas, comuns nesses casos, só fazem trazer a vítima para o palco da tragédia, no mais dos casos ambientes de dor.
Sentimentos de apego e de ódio são idênticos e ambos aprisionam aqueles que envolvemos nessa teia. Ninguém deseja a separação pela morte, mas se ela ocorre, nada mais há a fazer senão admiti-la e saudá-la, no sentido de que chegou um momento de desfecho para aquele ser, e se o amamos temos que ''empurrá-lo'' para a luz, pela força dos nossos sentimentos. Geralmente queremos homenagear com manifestações de pesar e de perda aqueles que saíram do nosso convívio, mas isso não é nenhuma homenagem e sim um martírio para eles.
Os chamados mortos não apreciam muito o ''dia dos mortos'' este 2 de novembro porque é um momento em que assistirão a choros e lamentações e se sentirão os ''culpados'' por isso. Melhor é lembrar deles com alegria e assim eles também se sentirão felizes. Podemos oferecer-lhes flores constantemente, em nossa própria casa, cantar-lhes canções, contar-lhes anedotas... Mas sem ''ir buscá-los''. Apenas lhes enviar nossas mensagens e nossas oferendas. Vê-los e conversar com eles não quer dizer aprisioná-los e desejá-los de volta, eis que aqui não é mais o seu lugar.
Bom que saibamos de uma coisa: a ''morte'' é aqui em nossa fisicalidade, e a vida é o nosso estado espiritual, onde podemos ter liberdade total de movimentos e um vasto campo aberto para o entendimento. Mas a simples passagem pelo desenlace físico ainda não é tudo, porque ''na casa do Pai há muitas moradas'' e eventualmente teremos de passar por várias delas, ou não, tudo dependendo da densidade que temos, portanto da nossa leveza.
Temos a idade dos tempos eternos e, em cada um de nós individualidades na grande unicidade cósmica somos pré-existentes aos nossos corpos carnais. Já existíamos antes, e nós mesmos planejamos o que queríamos ser e fazer aqui na Terra. O destino de que se fala é, pois, aquele que havíamos nos determinado experienciar. Mas sempre podemos mudá-lo, porque tudo é do nosso livre-arbítrio e nada é vontade de Deus. A vontade de Deus é, sim, que façamos as nossas vontades, e para isso ele nos conferiu todo o poder. Não fiquemos, pois, entristecidos com as coisas que nos acontecem e nos rodeiam, porque nada é por acaso.
Nosso mergulho na densidade da matéria em que nos encontramos nos fez esquecer nossos projetos pré-estabelecidos, mas isso se dá para que aprendamos espontaneamente o exercício do amor, da vontade, da paciência, do perdão, da caridade, da compaixão, da solidariedade, da fé. Ou teria pouca validade esse experimento. Se fazemos algo porque entendemos que é nossa obrigação, não há grande mérito; mas se o fazemos impulsionados pela livre vontade de fazê-lo, aí está a virtude.
Amanhã, ''dia dos mortos'', vamos nos lembrar que mortos não existem. Para todos aqueles vivos que nos deram um ''até breve'' e estão logo ali, melhor é não chorarmos, mas lhes dirigir palavras e sentimentos de carinho; prestar-lhes uma grande homenagem, com alegria e festa na alma.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


