A eletricidade move o mundo, nos conecta e impulsiona nestes tempos de computadores, satélites e internet. Sua geração é a principal preocupação do mundo que produz e consome desde a Segunda Revolução Industrial no século XX. Do carvão à célula fotovoltaica muitas foram as suas fontes geradoras. No Brasil consolidou-se o modelo das hidrelétricas sendo que em 26 de janeiro de 1971, próximo a Curitiba e ao Litoral do Paraná, entrou em funcionamento a Usina Hidrelétrica Governador Pedro Viriato Parigot de Souza, a Capivari-Cachoeira, com lago reservatório no planalto, um longo túnel escavado sob a Serra do Mar e seu conjunto gerador subterrâneo em Antonina, no Litoral. Uma obra de arte da engenharia e monumento da capacidade de realização do Paraná. Seu projeto e construção evocam inúmeros personagens de nossa história paranaense, como a engenheira Enedina Alves Marques, primeira mulher a graduar-se em engenharia no Paraná, a primeira negra a obter tal formação no Brasil.

Enedina nasceu em Curitiba em 13 de janeiro de 1913, única mulher do total de seis irmãos. Os 25 anos passados desde a Abolição, não foram capazes de abrandar com o preconceito, o racismo, e não produziram oportunidades e qualidade de vida para os ex-escravos e seus descendentes. Sua mãe era empregada doméstica, sendo que ela trabalhou como lavadeira para diversas famílias. Com a separação do casal, a mãe e os filhos foram morar com a família de Domingos Nascimento, em 1915.

Enedina foi alfabetizada aos 12 anos de idade, aprovada nos exames foi transferida para um grupo escolar anexo à Escola Normal que começou a cursar a em 1927, o Palácio das Instruções. Formou-se professora em 04 de dezembro de 1931 e atuou como profissional do ensino em diversas escolas pelo interior do Paraná e atual região metropolitana de Curitiba.


icon-aspas Enedina Alves Marques foi uma mulher independente que soube enfrentar as dificuldades e os preconceitos, pioneira para as mulheres e para as mulheres negras em particular.”

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Em 1935 Enedina retornou a Curitiba para fazer o curso de Madureza no Ginásio Novo Ateneu, exigência legal para atuar como docente. Como parte da formação havia um curso complementar para ingresso em curso superior. Enedina optou pelo curso de “Pré-Engenharia”. Entrou para a Faculdade de Engenharia em 1939, ela viveu todas as dificuldades inerentes àquela época, trabalhar para manter-se nos estudos, preconceitos de raça, gênero, classe social. Sua passagem pela Faculdade de Engenharia, que viria a ser a Universidade Federal do Paraná, foi marcada pela dificuldade, pela dedicação e, em todos os aspectos, pelo pioneirismo e força de vontade. São pontuados conflitos com a Instituição, colegas e principalmente com os professores, não há referências sobre preconceito de classe, racismo ou também solidariedade e colaboração de seus colegas. Graduou-se em 16 de dezembro de 1945.

Formada engajou-se na prática da engenharia. Ingressou na Secretária de Estado de Viação e Obras Públicas do Paraná, atuou como auxiliar de engenharia. Foi Chefe de Hidráulica da Divisão de Estatísticas e do Serviço de Engenharia do Paraná, trabalhou no Departamento Estadual de Águas e Engenharia Elétrica do Paraná. Atuou na Usina do Capivari-Cachoeira, onde conduziu o levantamento topográfico para o projeto e para a construção da usina, obra considerada a maior hidrelétrica subterrânea do Sul do País. Sua aposentadoria ocorreu no ano de 1962 e seu falecimento deu-se em agosto de 1981.


icon-aspas Sua vida é um exemplo de dedicação, esforço e superação, demonstrando como a educação, a ciência e o esforço acadêmico podem ser transformadores."

Enedina Alves Marques foi uma mulher independente que soube enfrentar as dificuldades e os preconceitos, pioneira que foi para a mulheres e para as mulheres negras em particular, nas profissões ligadas à tecnologia. A frente de seu tempo, uma das “Estrelas Além do Tempo”, mulher negra, brasileira, paranaense, curitibana, professora e engenheira competente. Os estudos sobre ela ainda não demonstraram toda sua capacidade, plenitude e obra. Sua vida é um exemplo de dedicação esforço e superação, ela demonstrou como a educação, a ciência, o esforço acadêmico, podem ser transformadores e também dar retorno a sociedade através da formação de profissionais competentes.

Guaratuba, uma obra ousada, uma ponte que mereceria um nome com tal peso: Engenheira Enedina Alves Marques.

Roberto Bondarik

Professor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio


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