Uma encrenca dos diabos
O deputado José Genoino (PT-SP) está na Câmara Federal desde 1982. Esses dezoito anos intensamente vividos no Parlamento lhe dão autoridade suficiente para afirmar que a briga Antonio Carlos Magalhães x Jader Barbalho jogou o Congresso na sua maior crise desde a CPI dos Anões do Orçamento. A CPI paralisou o Congresso por seis meses. Resultou na cassação de mais de uma dezena de deputados, entre eles um ex-presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro. Nada de importante o Congresso votou enquanto remexia nessas suas entranhas. A CPI inviabilizou a reforma constitucional, que acontecia na mesma época.
Genoino, como os repórteres de política, passa a maior parte da sua vida dentro do Congresso. Há uma tendência de julgar que essas brigas internas do Parlamento só interessam aos Genoinos e aos repórteres de política. Não afetam aos demais mortais. Aos leitores desavisados que passam correndo pelas notícias sobre as trocas de insultos entre ACM e Jader é recomendável um pouco mais de atenção.
Como ocorreu na época da CPI do Orçamento, agora a briga entre ACM e Jader também paralisa o Congresso e impede que assuntos importantes que afetam a nossa vida sejam discutidos da forma como deveriam. O Congresso nada vota de importante há meses. Provavelmente, vai fechar o ano sem conseguir concluir a votação do Orçamento, por exemplo. Talvez sem conseguir encontrar uma solução definitiva para o novo valor do salário mínimo.
Esse é um dos aspectos da briga que nos diz respeito diretamente. O outro é que por trás dessa desavença o que se discute de fato é o nome daquele que vai nos governar depois que o presidente Fernando Henrique Cardoso deixar o poder. Jader resolveu peitar ACM dentro de uma estratégia de afirmação do PMDB na aliança que sustenta o governo. O partido presidido por Jader quer tomar do PFL a condição de segunda força nessa aliança.
Geralmente, tais disputas terminavam com abraços e tapinhas nas costas. Mas Jader e ACM ultrapassaram o chamado ponto de não retorno. Estabeleceram uma situação que torna o entendimento impossível. Esgarçaram, até o ponto de quase rompimento, as relações entre seus partidos.
Desde a época da Constituinte, PMDB e PFL dividiam irmamente o comando da Câmara e do Senado. A briga agora assanhou o PSDB, que entra na disputa por esse comando. O que sempre foi resolvido por acordo as presidências do Congresso provavelmente será agora decidido no voto. São dois cargos e três os partidos que dão sustentação política ao atual governo.
Quem perder essa dança de cadeiras não vai ficar muito feliz. O PFL já calculou que a perda desse poder poderá levar o partido a diminuir 30% seu tamanho no Congresso, com imediata migração de deputados para outras siglas. O governo já não vivia melhores dias quando a relação entre os seus partidos não era assim tão ruim. Genoino tem razão. O Congresso vive uma encrenca dos diabos.
- RUDOLFO LAGO é jornalista em Brasília





