Uma dupla do Terceiro Mundo - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de junho de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
A convenção nacional do PT, realizada no dia 10 deste em São Paulo, sacramentou a dupla Lula-Brizola para concorrer às eleições como candidatos a presidente e a vice-presidente da República. Naquele momento de festa e euforia, o candidato Lula, com certeza encorajado pela ascensão em termos de pesquisas eleitorais, deixou entrever de forma mais realista sua personalidade e seu estilos, passando ao ataque pessoal a seu principal adversário, Fernando Henrique Cardoso. Referindo-se à privatização do Sistema Telebrás, disse Lula: Fernando Henrique está dando de graça o maior patrimônio público deste país, possivelmente para fazer um caixa 2 para a campanha eleitoral.
A acusação sobre caixa 2 é gravíssima e das duas uma: ou é verdade, e Lula agora está obrigado a comprovar sua acusação, ou tudo não passa de leviandade de um candidato cujo partido não gera idéias ou programas para alimentar seu discurso com algo mais consistente do que intrigas pesadas de campanha. Se for este último caso, o senhor Lula da Silva é que deverá ser processado pelo presidente por calúnia, difamação de danos morais, porque afinal não se pode brincar com a honra das pessoas.
Lembro-me que, quando disputou com o ex-presidente Collor de Mello, Lula foi nocauteado pela aparição na televisão da mulher com a qual teve a filha de nome Lurian (mistura de Lula com Mirian). Mirian foi levada ao programa de TV pelo pessoal de campanha de Collor, e se queixou amargamente das atitudes de Lula para com ela. O episódio repercutiu com força e até hoje é relembrado com ódio mortal pelos petistas, que taxaram de baixaria a iniciativa do adversário. Agora o próprio Lula reprisa a técnica da baixaria para atingir moralmente o presidente, só que sem provas, o que torna a acusação ainda mais terrível e com nítidos contornos totalitários e fascistas.
Imaginemos, porém, se fosse o contrário, se o presidente acusasse Lula de algum deslize moral. Com certeza teríamos um cataclisma nos terreiros paleolíticos da esquerda. Por dizer que a esquerda é burra, ou que quem se aposenta cedo é vagabundo, Fernando Henrique foi torpedeado de forma implacável. E recentemente a sensibilidade petista se exasperou quando o presidente do Banco Central, Gustavo Franco, disse em Basiléia (Suiça) que o resultado das eleições vai afetar os investidores. Imediatamente Franco foi acusado pelo deputado José Genoíno de fazer terrorismo eleitoral. Genoíno apelou para a palavra em moda, e em discurso vibrante declarou que é autoritário dizer que o adversário não pode ganhar porque virá o caos, ou que não se pode estabelecer na cabeça das pessoas a verdade autoritária de que o presidente Fernando Henrique tem de ser reeleito.
É estranho que um partido como o PT veja tanto autoritarismo nos outros. O petista Vladimir Palmeira, que foi lançado em abril candidato ao governo do Rio pelo encontro regional do PT, acha que autoritária foi a atitude do diretório nacional do Partido que derrubou sua candidatura para apoiar o candidato pedetista de Brizola, Anthony Garotinho. Também o ex-petista Paulo de Tarso Venceslau, que denunciou irregularidades de prefeituras do PT com relação à empresa privada Consultoria de Empresas e Municípios (CPEM), e ficou sem esclarecimentos além de ter sido expulso do Partido ao modo stalinista e processado na Justiça por Lula, não deve achar o Partido dos Trabalhadores democrático suficiente para tachar a tudo e a todos de autoritário. Mas ao que tudo indica, os petistas crêem firmemente que um petista terá sempre razão, pelo único fato de ser petista contra um não petista.
A verdade, porém, é que a dupla Lula-Brizola representa legitimamente a mentalidade terceiromundista, que é populista, estatizante, nacionalisteira, xenofobamente contra o capital estrangeiro, anticapitalista, contra o progresso científico e tecnológico e avessa ao processo de globalização. Esta mentalidade, é claro, é completamente retrógrada e inviabiliza qualquer progresso. Por isso, e não por ser autoritário, um executivo da Dresdner Kleinwort Benson alertou que, com uma eventual vitória do PT, haveria uma fuga significativa de capitais, um ataque contra o real e o efeito sobre as variáveis financeiras do Brasil seria provavelmente pior do que se houvesse um colapso do rublo na Rússia. Seria catastrófico.
Para se precaver contra a crítica de que não tem programa, o PT lançará um, que deverá incluir: quarentena para o capital especulativo, impostos sobre as grandes fortunas, advertência aos interessados na Telebrás, revisão das privatizações feitas, taxação sobres os lucros extraordinários de empresas privadas, taxas de juros que aumentem a competitividade, desestímulo às importações. Este programa, com os riscos que implica para a economia, poderia ser intitulado De volta ao passado. São receitas, essas sim, terroristas, que já fracassaram em outros tempos e que arrebentariam com tudo que foi conseguido no atual governo. É um programa digno de uma dupla do Terceiro Mundo, calcado no espírito do socialismo primata latino-americano.


