Uma Diana em cada um
Walmor Maccarini
Não reconheceríamos na princesa Diana sua singular delicadeza e sua beleza espiritual se não identificássemos em nós esses atributos. Nós reconhecemos o belo porque o identificamos em nós. Por isso passamos a admirar a doce Diana em vida, e nos comovemos tanto com sua morte. Porque temos uma porção dela no mais profundo do nosso ser.
Não era apenas a mulher bonita que amávamos em Diana, porque rostos tão belos conhecemos tantos, mas era algo mais, inexplicável, que nos fascinava em tão suave e delicada figura.
Não porque fosse uma princesa, ou não só por isto, mas algo mágico envolvia essa mulher de gestos delicados e olhar tímido e triste.
Diana manifestava em sua simplicidade o amor às pessoas, e agora ela transcende sustentada pela leveza de seu ser e pelas manifestações de amor da humanidade inteira. Um sentimento tão unânime não comete equívocos.
No domingo que passou (o dia do impacto da triste informação) pessoas de todo o planeta uniram-se em espontânea meditação, com uma só união de pensamento e uma unificação de consciência como não se conhecera igual, em todo o século. Foram horas de grande iluminação terrena. Se buscávamos uma definição para o amor puro e verdadeiro, desprendido, sem apego, tão forte e tão sereno, nós tivemos a resposta neste domingo. Diana nos proporcionou a oportunidade de um reencontro com nosso subconsciente mais profundo. De repente nos desligamos de todo o pensamento analítico e ficamos só nós, envoltos em doce e serena meditação, deixando revelar-se e fluir nossa natureza espiritual.
Deus sempre estava disponível no coração da princesa, e ela o sintonizava ao tomar no colo os meninos carentes da África e as crianças feridas da Bósnia e ao segurar as mãos de aidéticos e leprosos.
A morte de Diana serviu para este momento de identificação com o melhor de nossos valores e para uma reflexão sobre a importância que atribuimos às glórias terrenas; para mostrar que uma mulher tão bela, rica e nobre - uma nobreza real, na mais pura acepção do termo - não precisaria, para mais famosa se tornar se o quisesse, acarinhar aidéticos e leprosos, abraçar os infortunados, livrar das minas terrestres os incautos, entre eles crianças que brincam nos campos de guerra. Quem se lembraria de minas terrestres!? Mas ela o fez. Ao dignificar os pobres ela dignificou os nobres, ainda que estes apenas representados por ela mesma.
Foi esta a Diana que nos tocou fundamente.
Então muitos se perguntam por que Deus teria desejado levá-la tão cedo. Não nos cabe questionar sobre os desígnios divinos. Mas se houve um momento em que Deus esteve muito presente, este sem dúvida foi o da comunhão universal da dor ante a notícia do desenlace. Este foi um momento de união consciente com Diana, por extensão com nossa essência mais profunda.
Neste ato de comunhão manifestamos um reconhecimento e uma responsabilidade. No reconhecer, afirmamos nossa própria existência; e que somos uma fraternidade, porque o outro somos nós.
A morte da princesa Diana foi uma alavanca que moveu as emoções da humanidade. Este fenômeno inesperado gerou uma condensação de energias muito fortes e muito positivas, que reaprumaram o equilíbrio da vida terrena.
A transcendência da princesa nos conduz a um revival de sua personalidade e de seus procedimentos mais fecundos - que eram sua soberana doçura e as suas ações em defesa da vida - fazendo agora, com toda certeza, muitas pessoas pensarem e tomarem consciência de que temos missões aqui na Terra. Ademais, levará muito provavelmente a uma reformulação do modelo sensacionalista de jornalismo, este que invade a privacidade e violenta com os direitos sobretudo de celebridades - no fundo seres humanos comuns e passíveis de emoções e sofrimentos, de que a própria princesa Diana era um exemplo.
Emoções como as vividas neste dramático episódio movem os sentimentos de amor e faz-nos descobrir que havia a presença de Deus em Diana.
Até seu último ato de vida, que foi a própria morte, resultaria num tributo à fraternidade humana, pois colocaria a humanidade inteira em meditação e prece, uma trégua carregada de força espiritual numa época de tantas atribulações mundanas.
As pessoas deste mundo deram-se as mãos neste domingo, pelo poder da luz dourada de uma mulher, uma princesa que fizemos rainha e que já reina nos corações da humanidade.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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