Miguel Ignatios
Há em andamento no Congresso Nacional duas CPIs cujas revelações estão forçando a sociedade a tomar consciência daquilo que ela já desconfiava. Ou seja, que nos meios financeiros e nas altas esferas do corporativismo, as mazelas são proporcionais aos interesses em jogo. Refiro-me aos dados divulgados pela mídia a respeito da CPI dos Bancos e a do Judiciário.
Antes de entrar no mérito da questão, esclareço que encaro as CPIs como uma forma de prestação informal de contas dos poderes constituídos à sociedade. Sem exageros, nem reações emocionais do tipo ‘‘o Legislativo quer nos desmoralizar’’, que, em geral, mascaram interesses corporativos.
No estado de direito em que vivemos, a sociedade pode e tem direito a tudo. É ela que, em última instância, como substrato da cidadania e dos bons costumes, deve decidir que sistema financeiro e que Judiciário, só para citar dois exemplos, quer para nosso País.
Sem falsos moralismos, a existência de banqueiros e de juízes que se locupletam à custa dos recursos públicos mostra apenas que eles são humanos e, portanto, sujeitos à corrupção. Esse entendimento tolerante da sociedade não pode, contudo, ser visto como indiferença ou conivência. Ao contrário, ele deve provocar, como sempre ocorre, indignação.
Mas vamos à análise de alguns dados. Pelo que sabemos até agora, o socorro aos bancos Marka e FonteCindam consumiu aproximadamente R$ 7,6 bilhões. Para o leitor ter idéia do que isso significa, tais valores seriam suficientes para comprar duas ou três Vales do Rio Doce ou metade da Telebrás. O total já gasto para a construção do Fórum Trabalhista de São Paulo é o equivalente à construção de três hotéis 5 estrelas, com nada menos de 120 apartamentos cada.
Os valores envolvidos nessas duas transações, independentemente da legalidade e da oportunidade de uso de tais recursos, são simplesmente indecentes para um País que convive com a miséria, o desemprego, e a exclusão social e suas inevitáveis sequelas.
Nada tenho contra o Proer, que, diga-se a bem da verdade, foi um sucesso. Sem ele, as turbulências da globalização talvez tivessem destruído o sistema financeiro nacional. Além disso, os recursos usados para socorrer os bancos naquele programa eram provenientes do depósito compulsório que o Banco Central recolhe sobre o total dos depósitos à vista. Não é o caso, pelo menos ao que tudo indica até agora, dos recursos colocados à disposição do Marka e do FonteCindam.
Também é bom esclarecer que não sou contra a Justiça do Trabalho. Ao contrário. O que não significa aprovação à obra faraônica da seu fórum regional em São Paulo.
A desculpa usada pelo governo para não elevar o salário mínimo além dos R$ 6,00 propostos (o nosso é o mais baixo de toda a América Latina e um dos menores do mundo), é sempre a mesma: a Previdência Social, que já é deficitária, não aguentaria, na retórica oficial, pagar os benefícios reajustados. Ora, mas sempre que o governo quis, em outras ocasiões, desvincular o salário mínimo dos benefícios bancados pelo INSS ele o fez. Tanto que o aposentado da iniciativa privada recebe bem menos do que os dez salários mínimos do teto do benefício pago.
Essas coisas ‘‘arranham’’ a credibilidade oficial. Outro exemplo: o governo fez a reforma previdenciária, na qual atacou timidamente alguns privilégios do funcionalismo federal e dificultou ao máximo a vida do candidato à aposentadoria da iniciativa privada. Só depois disso, é que resolveu divulgar a lista dos grandes devedores do INSS e cobrá-los judicialmente. Por que não fez isso simultaneamente à reforma ou até mesmo antes dela? Foi mais fácil assim e o governo sempre faz o mais fácil. Se os devedores pagassem o que devem à Previdência Social, o déficit do INSS cairia pela metade.
Para encerrar, faço duas sugestões ao governo: criar um ‘‘Proer’’ capaz de gerar empregos, melhorar a saúde pública e a educação básica; e instaurar a CPI do Salário Mínimo. Afinal de contas, como dizia o saudoso Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislau Ponte Preta, ‘‘restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos’’.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
E-mail: [email protected]

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