Uma complicação inesperada
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de novembro de 1996
Luiz Geraldo Mazza 
A decisão da Câmara Federal que fulminou a pretensão de Algaci Túlio de ser vice-prefeito e deputado estadual ao mesmo tempo pode ter desdobramentos no mínimo curiosos: em primeiro lugar, Túlio é mais um, com sobras de razão, a pedir espaços na prefeitura, ao lado de Rafael Greca, que os deseja também no governo estadual, e tantos outros, como compensação por seu sacrifício; valoriza ainda mais a disputa pela presidência da Câmara, na qual o situacionismo precisa agir com extremo cuidado para evitar o repeteco da última tunda, até porque o grupo Pró-Cidade, que foi lernerista no passado, é hoje uma expressão de Poder no Legislativo municipal.
Não se deve considerar ainda a perda que representaria para a bancada oficial o desfalque de Algaci Túlio, que pode não ser um orador (aliás, eles não mais existem, até por inutilidade), mas tem experiência e com a vantagem de um certo senso de autocrítica. E se ele pedir espaços - e até merece direito de precedência porque à cada eleição arrumam novos pretextos para impedir que seja candidato a prefeito, direito de conquista desde a eleição dos 12 dias, quando garantiu a vaga de Lerner - complicará o painel de complicações que já começa a esquentar a moringa de Cássio Taniguchi.
Se Algaci ficar como vice deverá renunciar ao mandato de deputado, garantida a imensa faixa de manobra que deseja. Como Greca deseja manter alguns dos seus na prefeitura e emplacar outros, inclusive a esposa, dona Margarita, no Estado, dá para imaginar o que haverá de atrito entre esses adventícios e a equipe tradicional de Lerner, fato inegável e já evidenciado em diversos episódios. Divertidíssimo.
Na Câmara, os vereadores atuais estão jogando pesado, valendo-se justamente do orçamento: centenas de emendas, algumas terríveis, como a que obriga o prefeito a depender de amparo do Legislativo a cada crédito adicional, e outras, sutilíssimas, como a do vereador Jorge Samek, que insere algumas vinculadas aos compromissos de campanha de Taniguchi e que pegaria mal se fossem negadas, pelo fato de que sugeririam que as promessas não seriam cumpridas.
Uma farsa a MoliSre que, no entanto, valoriza o teatro político.
BIZARRICE - Quando Fernando Henrique Cardoso fez o auê com microempresários em Brasília, inclusive com o ritual da descida da rampa, em ato político, muita gente lembrou que Collor teve nesses gestos o momento de arranque e o de queda final. A reedição pode atrapalhar a reeleição.
SPRAY - Estouraram com as chuvas alguns tanques em Campina Grande do Sul e houve uma consequência ecológica: peixes exóticos como carpas, húngara e a cabeçuda, chinesa, juntamente com o temível catfish africano foram parar no Capivari. Se o bagre africano for, como alardeou a Rede Globo, quase um anfíbio, por ser capaz de ficar mais de um dia fora dágua, teremos um senhor problema. - Aliás, alguns curiosos andaram lançando peixes amazônicos em algumas das nossas represas: o tucunaré é um deles e que dificilmente se ajustaria ao frio. - Essa história do poder de fogo dos prefeitos é relativa: Álvaro Dias tinha apoio de 85% deles, incluindo alguns do PDT, e isso de nada adiantou. Lerner agora fez a maioria (111 pelo PDT, 54 pelo PTB e 36 pelo PFL, isso sem falar nos do PMDB e do PPB, que devem aderir sem necessidade de cooptação), mas essa aliança só terá sentido se o governador estiver, na hora da eleição, com a credibilidade em alta. - Mudança da carteira de trabalho (o Paraná vai servir de cobaia) é importante. Mas o prioritário é criar condições na economia para que o mercado informal não se mantenha como saída para a crise. Porque aí a carteira não é mesmo assinada. Aliás, no Paraná temos mais de 35% de trabalhadores sem carteira assinada. Com o apoio à microempresa, aumentará o nível de formalidade. - Sobre mercado de trabalho, há um dado sério da conjuntura: cai a ocupação e aumenta a produtividade, tanto industrial como comercial. Tendência universal que se torna perversa num país sem direitos sociais como o Brasil e com suas fragilidades no plano educacional. - No Paraná vai ser fácil observar o fenômeno com o rush industrial do momento (Renault, Chrysler, Electrolux etc): a hierarquia superior e técnica virá de fora e para os excluídos de hoje haverá apenas ocupações periféricas, como a de zelador, guardião e, é claro, na fase das obras civis. - Estouraram os orçamentos da prefeitura e da Câmara Municipal: esta tinha gasto R$ 27 milhões até setembro e a previsão era de R$ 31 milhões para o ano inteiro. Com 13º, 14º, mais os pagamentos de novembro e dezembro, explode.
FOLCLORE 1 - O iratiense perguntava: por que todo o mundo se sensibiliza com a cassação do senador Roberto Requião e nada se diz sobre a cassação do Toti Colaço, afinal definitiva?
FOLCLORE 2 - Lerner prometeu, ainda na sua primeira gestão na prefeitura, que iria devolver os lambaris de rabo vermelho ao Rio Belém. Pode ser que cumpra, mas deve demorar mais do que a reforma agrária no Brasil. Como esta sai, antes, no plano virtual (e esse é um campo de especialização do arquiteto), deve-se considerar que nesse aspecto os lambaris voltaram. Só que são de acrílico.
Ou ainda, produto da computação gráfica, quase sempre mais belo que o real. Purpurina em lugar de escamas.
CROMO - Como querer bem sem um mínimo de possessão? O ser amado pode figurar como a bola de gude, jogadeira, fetiche indispensável do pré-adolescente. Essa não se cede e não se empresta, e quando isso acontece a magia indica que pode ser fatal.


