Uma casa feita de lata e vidro
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domingo, 09 de fevereiro de 2003
Denise Angelo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - As placas vindas da Bélgica em grandes navios para fazer portas de Audi ganharam uma nova utilidade em Curitiba. Elas revestem paredes e dão um toque diferente a uma casa construída em Santa Felicidade, o bairro italiano de Curitiba. Parte da casa foi revestida com as placas usadas no lado externo do carro e por isso não há o perigo de ferrugem.
Em outra parte, no entanto, foram utilizadas as placas internas das portas e agora a ferrugem é aguardada com ansiedade. É que a cor dará um charme especial à construção. E depois que a ferrugem tomar completamente o espaço, receberá um tratamento de impermeabilização para manter a cor. As placas têm garantia de 12 anos. Elas revestem paredes simples de tijolos. E para fixá-las foram utilizados 30 mil parafusos e rebites.
O uso desse material é só mais um elemento numa construção feita a partir de uma filosofia diferente de construção. O arquiteto que idealizou a obra, Fernando Canalli, explica que a idéia era colocar para trabalhar somente pessoas desqualificadas: os ''inúteis'' e os ''fúteis''. Para completar, os materiais deveriam ser vulgares. ''Os inúteis na nossa sociedade são os velhos e os fúteis são os jovens com idade até 25 anos.''
Foram essas as pessoas que construíram a casa, de quase 600 metros quadrados. ''A idéia da necessidade de constante qualificação só está servindo para criar uma massa gigantesca de desqualificados hoje. E ao procurar a qualificação, as pessoas esquecem de olhar as qualidades dos indivíduos'', considera.
Com esse princípio, o arquiteto se autodesignou um consultor espacial e deu ao proprietário da casa, Osmar Jardim, o título de arquiteto espontâneo. A diarista se tornou a paisagista e está transformando a área externa num misto de plantas de todas as espécies possíveis. A única regra é tornar o ambiente agradável.
Canalli defende que arquitetura é a concepção do espaço, independente dos materiais utilizados. Por isso, os velhos basculantes foram resgatados e criaram uma parede de seis metros de altura por seis de largura. O vidro permite que a casa fique ensolarada. O piso é de cimento e nas paredes não existe nenhum revestimento, a não ser algumas poucas pastilhas que foram usadas para dar um colorido divertido em alguns cantos dos banheiros.
A construção é dividida em dois blocos, cujas estruturas são de barracões industriais. Na parte da frente, além da garagem, fica uma área destinada ao escritório da família, mas que rapidamente se transforma num salão de festas.
Na parte de trás fica a residência tradicional: quartos, cozinha, sala, banheiros e sauna. Os dois blocos têm dois andares e para ligá-los foi construída uma passarela que tem nas laterais as placas de Audi. A cobertura é de lona. A idéia inicial era colocar vidro, mas como a lataria é bastante flexível, o vidro quebraria facilmente. No chão, muita imbuia, do tipo exportação. Só que como foram comprados os tocos dessa madeira, o custo caiu.
Em função de todas essas características da construção, o metro quadrado custou cerca de R$ 250,00, enquanto o Custo Unitário Básico (CUB) aponta hoje que um custo de R$ 600,00 aproximadamente para o metro. ''Além do custo ser menor, todas as pessoas que participaram da construção se entusiasmaram. Foi criada uma atmosfera de harmonia aqui'', conta o arquiteto.


