Eis que começou a propaganda eleitoral gratuita nas televisões e rádios. O momento marca nova fase na campanha e era esperado especialmente pelos candidatos em desvantagem nas pesquisas eleitorais, ou aqueles sem nenhuma exposição na mídia.
Este ano, por força da nova legislação eleitoral, aprovada pelo Congresso quase sob encomenda do Palácio do Planalto, a campanha na TV e no rádio será mais curta do que foi em anos anteriores. Isso significa que Lula e Ciro Gomes, os principais adversários do presidente Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição, terão bem menos tempo para dar seu recado aos eleitores e subir nas pesquisas de intenção de voto.
O eleitor conhece bem Luiz Inácio Lula da Silva, que empolgou as multidões na campanha de 1989, quando houve a primeira eleição direta para a presidência da República depois do regime militar, mas foi derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello. Cinco anos depois, Lula surgiu como o grande favorito ao Palácio do Planalto, mas perdeu as eleições atropelado pelo impacto do Plano Real e pela postura equivocada de seu partido em relação ao programa de estabilização do governo. O Real era quase que uma unanimidade nacional, e o PT não soube ver que ele atendia aos anseios da população.
Agora, sem o entusiasmo das duas campanhas anteriores, Lula estréia no horário eleitoral gratuito com uma postura mais moderada e menos negativista. Mas terá pouco tempo para convencer o eleitor indeciso, ainda em grande número, de que pode resolver os problemas nacionais que se agravaram durante o governo Fernando Henrique Cardoso, como o desemprego.
Já Ciro Gomes é quem mais perde. O eleitor, de maneira geral, não o conhece, nem se lembra de que era ele o ministro da Fazenda do governo Itamar Franco quando o real começou a circular. Quase sem nenhum espaço na imprensa, segundo dossiê entregue por Lula ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Ilmar Galvão, Ciro aposta na propaganda gratuita para se tornar uma personalidade nacional. Terá, porém, muito pouco tempo para conquistar o eleitor e subir nas pesquisas.
São menos de vinte dias de programas dos candidatos à Presidência até o primeiro turno das eleições. Além disso, não haverá debates com a presença do presidente Fernando Henrique, seguindo a tática de não se submeter a uma bateria de críticas da parte dos adversários.
A desigualdade na campanha deste ano é gritante também em relação ao espaço dedicado pela imprensa aos atos do candidato e do presidente Fernando Henrique. Na prática, nem podia ser diferente. O presidente não deixou o cargo, continua governando e sua exposição na mídia não é diferente do que tem sido ao longo dos três anos e oito meses de governo. Massiva.
Sem empolgar o eleitor - nem haverá muito tempo para isso - o horário eleitoral dificilmente vai alterar o atual quadro, que vem caracterizando as eleições deste ano mais como um referendo do que como um pleito. A menos que a oposição consiga mudar seu discurso e demonstre que tem condições de encontrar melhores soluções do que as atuais para resolver os problemas do País e tornar o Brasil uma nação de cidadãos, e não apenas de pessoas. Tudo isso em apenas quarenta dias. Pouco provável.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

mockup