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Parte dos avanços na educação foi impulsionada pelo Bolsa Família, cujas condicionalidades estimulam a permanência de crianças e adolescentes na escola
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quarta-feira, 17 de junho de 2026
Parte dos avanços na educação foi impulsionada pelo Bolsa Família, cujas condicionalidades estimulam a permanência de crianças e adolescentes na escola
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Os problemas brasileiros são visíveis e recorrentes, o que gera um habitual desânimo diante do eterno país do futuro. Apesar de toda a riqueza e de estarmos entre as 10 maiores economias do mundo em PIB nominal, continuamos entre os países mais desiguais na distribuição de renda; a coleta e tratamento de esgoto alcançam apenas metade da população, e cerca de 16 milhões de pessoas vivem em favelas.
Porém, quando fazemos um recorte temporal e avaliamos a realidade ao longo dos anos, percebemos avanços importantes. O mais recente IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), divulgado pela ONU, indica que o país atingiu, pela primeira vez, o patamar de desenvolvimento humano "muito alto". O relatório, publicado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) com base em dados de 2024, mostra que, numa escala de 0 a 1, em que quanto mais próximo de 1 melhor a situação, o Brasil encontrava-se, em 1990, no estrato "baixo", com pontuação de 0,555. Em 2012, alcançou 0,744, passando para o estrato "alto". Em 2024, atingiu 0,805, integrando o grupo de países com desenvolvimento humano "muito alto".
Pode-se questionar se os critérios que definem o patamar "muito alto" do IDH são adequados para refletir a realidade de países com desigualdades tão profundas quanto as do Brasil. No entanto, a média mundial do índice ainda é relativamente baixa, o que coloca em perspectiva a conquista brasileira.
Mas os avanços são reais: quando se analisam os três quesitos que compõem o índice — saúde (expectativa de vida ao nascer); educação (número médio de anos de escolaridade); e renda (Renda Nacional Bruta per capita ajustada pela paridade do poder de compra) —, constatam-se duas realidades distintas entre 1990 e a atualidade.
Entre 1990 e 2024, a população brasileira passou de aproximadamente 150 milhões para cerca de 212 milhões. No mesmo período, a expectativa de vida ao nascer passou de 66 para 76 anos. A escolaridade média dos adultos passou de 3,7 para 8,4 anos de estudo e o número de analfabetos saiu de 20% para 5,3% da população com 15 anos ou mais. Já a renda per capita ajustada pela paridade do poder de compra elevou-se de aproximadamente US$ 6.500 para US$ 21.650.
Parte dos avanços na educação foi impulsionada pelo Programa Bolsa Família, cujas condicionalidades estimulam a permanência de crianças e adolescentes na escola. Para que a família receba o benefício, é necessário que os estudantes estejam matriculados e mantenham frequência escolar mínima de 75%. Além de contribuir para a redução da pobreza, o programa ajuda a retirar muitas crianças do trabalho precoce e a criar condições para sua permanência no ambiente escolar.
Apesar de o IDH ter crescido ao longo do tempo, o país continua registrando desigualdades persistentes e diferenças expressivas entre regiões, gêneros e raças. Homens têm nível de desenvolvimento muito alto (0,802), enquanto mulheres têm nível alto (0,798); pessoas brancas têm nível de desenvolvimento muito alto (0,851), enquanto as negras têm nível alto (0,774).
O Distrito Federal, com o maior IDH entre os entes federativos, tem nível de desenvolvimento muito alto (0,866), enquanto o Maranhão registra o menor, com nível alto (0,745). Um cidadão branco do Distrito Federal tem uma renda média mais de quatro vezes superior à de um cidadão negro do Maranhão: de R$ 1.987 para R$ 446,20. No entanto, uma boa notícia é que a população negra avançou a um ritmo quase duas vezes superior ao da população branca no período.
A questão que se coloca hoje para o Brasil não é se ele pode se desenvolver, mas se o fará de forma inclusiva e sustentável. Desenvolvimento só pode ser entendido como tal quando alcança a todos, independentemente de raça, gênero ou região. Os números do IDH animam, mas ainda coexistem dois Brasis profundamente desiguais.
Luís Miguel Luzio dos Santos, professor de socioeconomia e ética na Universidade Estadual de Londrina


