Nos últimos anos, a posição do Brasil no fluxo internacional de capitais tem sido bastante positiva: em 1996, o País recebeu o quinto maior volume de investimentos diretos estrangeiros, quando a China ocupou a primeira posição e a Índia, a terceira. Tais investimentos têm sido considerados relevantes sob duas perspectivas: o equilíbrio das contas externas e a geração de empregos. A pergunta que se coloca é: seria possível negociá-los melhor? Responder a essa questão, em termos práticos, é fundamental para evitar que o País se torne mais vulnerável a uma ‘‘armadilha’’ da economia global: a perda de competências tecnológicas e de recursos humanos, suscitada pelo novo modelo operacional das grandes empresas transnacionais.
Do ponto de vista só do equilíbrio das contas externas, os investimentos têm sido saudados por uns e questionados por outros, com base no argumento de que, a prazo mais longo, podem aumentar as importações, por exigir insumos eequipamentos não produzidos localmente; sem que, em contrapartida, venham necessariamente aumentar as exportações. Ainda não há evidências quanto a isso.
Quanto aos novos empregos que estão sendo criados, é preciso pensá-los sob dois ângulos: quantitativo e qualitativo, ou seja, que tipo de capacitação e de competência está sendo criado. Num mundo em que o principal fator de competitividade de empresas e países é a competência de seus recursos, a qualidade do emprego é um tema que precisa ser tratado com cuidado.
O conceito competência ajuda a colocar esse argumento com um foco mais preciso. Competência é diferente de qualificação, à medida que diz respeito ao saber fazer e ao saber agir num contexto profissional. Não há formação de competências se não houver situações profissionais que demandem conhecimentos e habilidades. A formação de competências exige permanente ajuste e aperfeiçoamento da dinâmica entre os reais requisitos do trabalho e a formação das pessoas.
Ora, no Brasil, as características do trabalho estão sendo redefinidas, no atual processo de reestruturação industrial, pela orquestração entre as empresas transnacionais, sob a batuta das primeiras. São elas que ditam a dinâmica do sistema industrial ao qual as empresas nacionais estão procurando realinhar suas estratégias competitivas. As decisões das companhias transnacionais, quanto à forma de organizar suas subsidiárias, estabelecem então os reais requisitos do trabalho local e, consequentemente, definem o campo de possibilidades de gestão de competências para o país.
Os trabalhos que temos desenvolvido, não só no Brasil, mas em outros países, como Japão, Coréia, França e México, mostram que as empresas transnacionais estão alterando suas formas de operar, passando de uma estratégia de operações relativamente autônoma, que atende a mercados fragmentados, a uma estratégia de integração de operações em escala mundial. Isso implica processos de reorganização, especialmente pela redistribuição geográfica de atividades.
As grandes companhias que já tinham subsidiárias no Brasil desmobilizaram, em geral, a função ‘‘pesquisa e desenvolvimento’’. Algumas delas reduziram a autonomia gerencial. Reforçou-se o papel operacional: otimizar o mix de produção (agora pensando em termos globais ou regionais) e realizar a gestão da cadeia de suprimentos (atendendo a critérios definidos pela matriz). As que estão instalando subsidiárias no País já vêm com essa estrutura de atividades. As novas fábricas de automóveis são evidência desse argumento.
Ora, as características do trabalho resultante desse tipo de investimento são de natureza essencialmente operacional. Sob o ponto de vista da gestão de competências locais, isso define um campo de possibilidades bastante limitado. A perspectiva é de perdemos espaço no que tange à formação de competência tanto tecnológica quanto gerencial, deixando o País ainda mais vulnerável à competição internacional. Essa tendência ainda é potencializada pela políticas de atração do investimento estrangeiro, que não fazem exigências de contrapartida para as empresas envolvidas.
Há dois encaminhamentos complementares para sair dessa armadilha. O primeiro é negociar, de maneira mais assertiva, o perfil dos novos investimentos no Brasil. A atratividade do mercado brasileiro e do Mercosul parece suficientemente grande para que se exija contrapartida das empresas estrangeiras, como fazem a China e a Índia, que, como mencionamos, estão recebendo mais investimentos do que o Brasil.
Mas, para que isso seja viável, é preciso entender as estratégias e as escolhas organizacionais das transnacionais para antecipar os seus movimentos e preparar as negociações. O comportamento dessas empresas não é homogêneo, variando em virtude de sua origem (norte-americanas, européias ou asiáticas) e tipo de produto/mercado (‘‘high-tech’’ ou de bens de consumo). É preciso prever o campo de negociações com diferentes companhias e, acima de tudo, não perder de vista que elas estão competindo entre si.
O prazo mais longo, é preciso considerar que novas ondas tecnológicas e de reestruturação produtiva deverão ocorrer num futuro não muito distante. A preparação do País e, especialmente, de seus recursos humanos para essa futura rodada tem de ser pensada com antecipação.
- AFONSO FLEURY é professor titular da Escola Politécnica da USP e presidente da Fundação Vanzolini - MARIA TEREZA LEME FLEURY é professora titular da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis da USP

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