Uma antipática discriminação
Natural que os estudantes do Paraná, candidatos a ingressar nas universidades do Estado, assim como suas famílias, aprovem a intenção do governo paranaense de impor uma reserva de 80% das vagas para beneficiar os filhos da terra. Mas a idéia é antipática e pouco democrática, embora tenha amparo legal.
Isto significa uma limitação à entrada de pessoas de fora, mesmo que restrita ao âmbito das universidades públicas. O Paraná de todas as gentes passará, com a medida, a ser um Estado discriminador, embora contemple o estudantado paranaense.
Se as demais universidades estaduais, no Brasil, fizerem o mesmo, candidatos do Paraná verão diminuírem suas chances de estudar fora daqui ao menos nessas instituições públicas e o País se compartimentará em casulos, qual nações distintas.
Universidades de todos os pontos do território nacional têm em seus bancos estudantes do Paraná, e brasileiros de todos os cantos misturam-se aos paranaenses nas nossas universidades. Essa mescla promove o caldeamento de patrícios de diferentes procedências e costumes, mas de fala e ideais idênticos, e reforça o sentido de brasilidade.
A medida, discriminadora em sua natureza, criará um clima de antipatia para este que é um dos mais novos Estados da República, forjado pela mão de brasileiros de todos os lugares e gente que veio de terras distantes. O Paraná é feito de paulistas, mineiros, catarinenses, gaúchos, mato-grossenses, europeus, asiáticos, e naturalmente os que deles descenderam e que compõem a população paranaense.
Ademais, já existe uma seleção natural, sem necessidade dessa lei. Pela declaração do reitor da Universidade Estadual de Londrina e apenas para citar um exemplo 72% dos estudantes dessa instituição são paranaenses, naturalmente porque é maior o contingente de candidatos ao vestibular procedentes do próprio Estado, e até pela proximidade. Por esse indicador, parece não fazer sentido o argumento de que a medida que se propõe visa corrigir distorções e estabelecer equilíbrio com o número de estudantes de fora.
Não há dúvida de que os cidadãos paranaenses aprovam a medida, como ficou manifestado através de pesquisa de opinião, mas este não foi o estilo do Paraná do passado, que precisou do conhecimento e da mão-de-obra de fora para consolidar-se como Estado forte e desenvolvido.
O modelo que se quer impor poderá criar precedentes e estender-se por outras áreas, com prejuízo para o intercâmbio de experiências e para o interelacionamento de próprios brasileiros.
A proposta conflita com os ideais, tão acalentados, de atrair investidores de outros Estados e de outros países. A comparação é pertinente. Se os produtos do Paraná são vendidos para fora do Estado e se há uma relação contínua de interdependência entre todos, medidas de limitação nas universidades soam incoerentes.
A abertura deve ser ampla, sem exclusões, porque somos todos brasileiros. Se a reserva de vagas visa favorecer os contribuintes paranaenses, como defende o Secretário de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, também é verdadeiro que acadêmicos do Paraná estudam em universidades públicas de outros Estados e não são contribuintes lá.
Há que atentar para a política de reciprocidade e de boa vizinhança, ainda mais tratando-se de universidade, cuja denominação significa a totalidade e o universalismo, que se contrapõem à particularidade.





