Uma aliança no tempo certo
O País está cansado de ver acordos políticos que terminam como uma viagem de ônibus em que cada um salta na primeira parada. As conversas e negociações que têm acontecido ultimamente entre o PSDB e o PMDB têm de ter a preocupação de mudar esta realidade. O PMDB é uma legenda com tradição histórica, que ainda tem a melhor aceitação do conjunto da sociedade.
Conforme repetidas pesquisas de opinião pública, tem sido apontado, também, como o partido mais influente e que tem liderança nos Estados. Com um espectro de forças tão amplo, uma das principais características que o diferem de outras legendas é a coerência e a unidade em meio à pluralidade.
Apesar das diferentes correntes, o partido está buscando a coesão para participar da sucessão presidencial com maturidade. Mas as definições necessárias para que isto ocorra devem ocorrer mais adiante, num momento que não atrapalhe ninguém. Os partidos têm até o fim de junho para realizarem suas convenções, que precisam aprovar as alianças e composições nacionais e regionais ainda na fase de negociação. Além disso, algumas regras eleitorais permanecem incertas.
O PMDB não irá se associar a iniciativas que permitam enfraquecer seus ideais. O momento é do País, não das vaidades de nomes ou pretensões com o poder. Há um cronograma político que deve ser respeitado. Primeiro é necessário estabelecer o papel de cada um na aliança, sublinhar os pontos programáticos coincidentes, montar um núcleo comum de campanha e estabelecer um calendário conjunto. A questão de nomes não é a mais importante agora. A definição virá no tempo certo e como consequência da aliança. Em outras palavras, a escolha racional do vice deve ser uma das últimas etapas deste processo.
O partido não tem faltado com o País, participando do ministério e já proporcionou repetidas manifestações destes compromissos, não apenas com governos. É assim que vamos prosseguir, buscando o crescimento econômico e o resgate da dívida social. Hoje, a legenda vive um momento decisivo em sua histórica trajetória política. Um partido do tamanho do PMDB é complexo e abriga as mais diversas correntes políticas e ideológicas. Esta situação leva a todos que o integram a conviver, democraticamente, com tendências muitas vezes opostas. Mas, se a unanimidade é burra na vida, como dizia Nelson Rodrigues, também o é na política. Por isto, sempre apoiei o debate interno, equilibrado, consistente do ponto de vista ideológico.
Não é de hoje que existe um compromisso do PMDB com a governabilidade, não com a governança. E esta premissa indica que uma aliança deste espectro, para ser legítima, tem de mobilizar o País em todos os seus recantos, tem de mexer com a emoção de suas bases, empolgando a militância e simpatizantes.
Este caminho, que vem sendo delineado há tempo, tem de ser necessariamente transparente. O partido nunca ocultou de ninguém, nunca omitiu nas conversas políticas, que apresentaria como fez uma proposta ao País, que deve se traduzir em um grande acordo com o PSDB. Mas este processo volto a insistir tem de cumprir etapas. A primeira aconteceu semana passada, quando representantes dos dois lados concordaram na formação de um núcleo para administrar a aliança, costurar os detalhes do acordo, resolver problemas internos e regionais dos dois partidos e caminhar para o coroamento deste processo, que será a formação da chapa que disputará as eleições presidenciais.
Para que a aliança tenha credibilidade, não pode virar um namoro de Carnaval, que sempre termina na quarta-feira de Cinzas, com cada um para seu lado. Deve ser consistente e duradoura, como um noivado que culmine em um casamento de idéias, vontades e objetivos, com igreja cheia e tudo o mais que uma união séria exige.
RENAN CALHEIROS é líder do PMDB no Senado





