Uma algema no traficante, duas algemas no corrupto - Valter Luiz Orsi
Uma algema no traficante, duas algemas no corrupto Valter Luiz Orsi Os últimos acontecimentos no cenário político-policial do Paraná oferecem uma grande oportunidade para que os cidadãos acordem para a gravidade da situação vivida pelo Estado e para as agressões que cada um de nós sofre a cada dia como integrantes da sociedade. O fato de a Polícia Civil estar sob forte suspeita de envolvimento com o crime organizado, levantada por testemunhas ouvidas pela CPI do Narcotráfico, beira o absurdo. Delegados, policiais e até o ex-delegado-chefe da corporação Ricardo Noronha foram afastados por terem sido citados como coordenadores do tráfico. Com prisão preventiva decretada, Noronha está até agora foragido. Em outras palavras, os encarregados de combater o crime estavam mergulhados nele, à frente dele. Nesse caso, não se trata apenas de corrupção, mas de inversão ou subversão de papéis. É o crime cometido por quem é pago para coibi-lo. O traficante é um criminoso de alta periculosidade. O policial que se une a ele ou o coordena é ainda mais perigoso e danoso. Se o primeiro merece ser preso e condenado a cem anos de cadeia, o segundo merece o dobro da pena. A autoridade que corrobora com o crime é o pior dos criminosos. O mesmo vale para os outros tipos de crimes cometidos por autoridades, principalmente no caso daquelas eleitas pela sociedade para administrar as coisas públicas. Londrina, nesse contexto, vive um absurdo comparável com o que se instalou na Polícia Civil. Com diferenças básicas, mas semelhanças inquestionáveis a começar pela gravidade. Os desvios já comprovados pelo Ministério Público em órgãos da administração municipal passam de R$ 16 milhões. E podem chegar a cifras muitas vezes maiores. Isso significa que dinheiro público que pertence aos cidadãos foi surrupiado levianamente por pessoas físicas ou empresas. O destino final desses recursos, por enquanto, ainda não se sabe ao certo. A certeza que temos, desde já, é a de que o dinheiro foi tirado de seus donos verdadeiros (os cidadãos) exatamente por aqueles que foram eleitos ou contratados para administrá-lo honesta e competentemente. Esse é um crime contra o contribuinte cometido pelos representantes do contribuinte. Se uma pessoa ou empresa lesa os cofres públicos, ela é autora de um crime contra o patrimônio da sociedade. Se uma autoridade eleita ou indicada por quem foi eleito comete um desvio semelhante, ela está incorrendo num crime contra o patrimônio público e em outro, ainda mais grave, que é trair a confiança do cidadão-contribuinte. Se um precisa ser preso e devolver o que foi roubado, o outro faz por merecer uma pena muito superior, por se valer de uma condição privilegiada que lhe foi confiada pelo povo. Nesse aspecto, os absurdos da Polícia Civil em meio ao narcotráfico e da administração municipal em relação ao escândalo AMA-Comurb se equivalem. São crimes gravíssimos contra o conjunto da sociedade, a integridade de cada pessoa e contra a missão elementar de um governo seja ele em nível nacional, estadual ou municipal. Se um traficante merece um par de algemas, um corrupto merece dois deles. VALTER LUIZ ORSI é presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL) e integrante do Movimento pela Moralidade na Administração Pública.





