UMA ALDEIA DE FATO - Globalização favorece incidência de epidemias
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Nos últimos dias, após a morte do engenheiro sul-africano William Charles Erasmus por hemorragia causada por um ''vírus não identificado'', começaram as especulações. Em nota oficial, o Ministério da Saúde (MS) afirmou que as principais suspeitas recaíam sobre o arenavírus, microorganismo relacionado a doenças severas. Nesse domingo, o MS mais a Fundação Oswaldo Cruz divulgaram que, de acordo com os exames, o engenheiro sul-africano foi vítima de febre maculosa.
A revelação não pôs fim ao frenesi em torno dos numerosos tipos de arenavírus e sua ação. Devastadores e altamente contagiosos, os arenavírus têm estreita ligação com a África. Mas já mataram uma brasileira e encontram nas Américas a maioria de seus vetores. Resultado: ninguém está imune.
Para André Bortoliero, infectologista do Hospital do Coração de Londrina, esse como muitos outros vírus ainda vão tomar muito a roda de discussões e especulações. Sinal dos tempos de globalização e de viagens constantes.
No Brasil, o arenavírus Sabiá matou uma mulher em São Paulo em 1990 e desapareceu sem que sua origem tenha sido identificada. Afinal, o que vem a ser o arenavírus?
São vírus provenientes de animais, sendo eliminados por urinas e fezes de roedores em região de floresta e mata. No Brasil, tivemos um caso em 1990, quando uma cientista morreu de febre por arenavírus. Essa é uma família grande de vírus, que recebem nomes conforme a região em que causam a doença. A mais clássica que temos de arenavírus é a Febre de Lassa, que ocorre mais na Nigéria e é uma febre hemorrágica.
O vírus é tão contagioso como é retratado nos filmes?
Sim, trata-se de um vírus bastante contagioso, pela inalação das partículas contendo o vírus e, no caso de um doente com febre hemorrágica, pela saliva, sangue, secreções. Os profissionais da saúde que atendem esse paciente sem saber que se trata dessa doença e sem saber que esse vírus é altamente contagioso são os que mais correm riscos. Na suspeita de uma febre hemorrágica, a dica é utilizar luvas, máscaras e óculos de proteção.
Quais são os principais sintomas da doença, depois de incubada? São específicos?
Trata-se de uma febre hemorrágica e os sintomas não são específicos. Podemos elencar a febre alta, dores pelo corpo, dores de cabeça, vômito e diarréia para então surgirem os fenômenos hemorrágicos, como diarréia com sangue, vômito com sangue, sangramento nasal e gengival.
As recentes manchetes afirmando que estaríamos sujeitos a uma epidemia de arenavírus procedem? As autoridades vacilaram?
Vivemos os efeitos da globalização. Hoje estou no Brasil, amanhã posso estar na China e depois na Austrália ou no Japão. A velocidade que nos leva a todos os cantos do globo torna muito mais fácil a incidência de epidemias em nível mundial. Por isso, acredito que não se trata de descuido, mas da rapidez com que as situações ocorrem. Um paciente pode entrar no Brasil totalmente assintomático, com uma virose que adquiriu em outra região, e vai poder manifestar e transmitir a doença por aqui. Nos últimos anos, ou nós tivemos sorte ou as autoridades agiram corretamente, quando se deu o surto mundial de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que é a pneumonia causada pelo coronavírus e o Brasil ficou praticamente imune a isso. Os poucos casos que foram reportados aqui foram de pessoas que vieram de fora e a doença não se espalhou pelo Brasil. Com a gripe aviária, aconteceu o mesmo. Tivemos vários casos na Ásia, mas não aqui.
Os arenavírus podem ser uma ameaça como agentes do bioterrorismo?
As autoridades podem tomar o máximo cuidado, mas nada impede que um doido pegue um tubo de ensaio cheio de arenavírus, por exemplo, e espalhe por aí. Nenhum país está livre. Sempre haverá um frenesi em torno do assunto, mas é importante lembrar que a medicina está evoluindo e os métodos diagnósticos também. Atualmente, conseguimos chegar a fundo e descobrir uma doença. No caso do sul-africano, a morte foi por febre maculosa, que causada pela bactéria riquétsia e não é novidade, uma vez que temos vários casos em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.


