Uma abjeta forma de mercantilismo
Se José Dirceu é um dos primeiros a serem apontados para cassação, sob a acusação de comandar o esquema do mensalão, ele paga o preço de haver sido o grande articulador das relações do Governo com os congressistas e de dispor de tão amplos poderes no círculo governamental. Mas cada deputado que aceitou essa forma de suborno deve, tanto quanto ele, sofrer a idêntica punição da perda do mandato. Neste país de tantas histórias de compra de voto parlamentar, por via direta ou através de inúmeras outras concessões, Dirceu exercia governo ao buscar arrebanhar esses votos, decisivos para aprovação de projetos de interesse governamental. Porque assim tem sido desde os primórdios da história republicana. Isto porém não justifica nem a existência dessa estratégia escandalosa de fazer a oferta, nem a aceitação dela. Porque, ao concordar em aprovar projetos mediante paga, os parlamentares denunciados não se atinham a avaliar se tais projetos eram bons ou não para a nação. Aí reside o delito maior. Não cabe nesta oportunidade discutir a validade das proposições do Governo que, aprovadas ou não, exigiram os anunciados subornos via mensalões, e sim a prostituição dos citados votantes até onde as denúncias vierem a ser comprovadas de simplesmente votar pelo sim ou pelo não mediante pagamento, independente de um exame criterioso do que votavam. Afinal, é aí onde repousa a responsabilidade parlamentar. De um lado, um ministro apontado como aliciador e ninguém melhor que ele, pelo poder de fogo que detinha e de outro os deputados propensos a simplesmente vender seu voto. O dinheiro, no caso, afigura-se como o instrumento, o meio, porém o mais grave é uma Câmara de Deputados abrigando em seu seio parlamentares tendentes a tão vergonhosas concessões, sabendo-se que apenas um voto pode ser decisivo para aprovação de um bom ou de um mau projeto, que irá se converter em lei. A existência de ideologias governistas e ideologias de oposição nas Casas do Congresso, nas Assembléias Legislativas e nas Câmaras de Vereadores, são uma natural ocorrência de democracia que mesmo assim não pode constituir postura sistemática, eventualmente prejudicial às populações a que servem mas isto difere da disponibilização do voto cego a favor, mediante um preço pago em dinheiro, similar ao que ocorre nos bordéis, ou o voto contrário porque não houve um pagamento. Isto desce, mesmo, às raias da mais reles prostituição. Embora grave e exigindo apuração das origens de tanto dinheiro, o montante dessa vergonhosa operação é menos relevante do que o mal infinitamente maior que é essa forma abjeta de mercantilismo.





