A vitória de FHC, no primeiro turno, não merece ser comemorada com entusiasmo. Primeiro, porque o eleitor não votou nele com tanto entusiasmo. É o que se extrai da leitura das pesquisas qualitativas. Segundo, porque sua vitória não foi tão monumental, como as pesquisas indicavam. Teve menos votos que em 94. Terceiro, porque as esquerdas ganharam também um voto de confiança. É o que se depreende do aumento de suas bancadas, a serem ampliadas com mais de 30 parlamentares, a conquista de dois governos e a possibilidade de mais três vitórias no segundo turno. Quarto, porque a borrasca no horizonte avisa que o tempo é impróprio para comemorações.
Fernando Henrique fez uma campanha de estilo weberiano, marcadamente burocrático, mais apropriado à sua índole. Fez um programa de televisão asséptico, que mostrou um país de maravilhas. O tom prá cima abafou a melodia amarga do programa do PT. Na comparação, ganhou disparado. O melhor perfil, idéias fortes, o mais preparado. O eleitor atentou para isso. Votou de modo racional, sabendo que a situação do País é grave. Por isso, não se entusiasmou, não acenou lencinhos brancos, não carregou seu candidato nos braços, conteve suas emoções. Não tinha alternativa. Ciro se apresentava como um projeto iniciante e Lula era um ícone do passado.
A derrota de Lula pode ser, em parte, compensada por uma grande votação dada aos candidatos das esquerdas, a partir de São Paulo. Em São Paulo, os dois parlamentares mais votados (Genoino e Mercadante) são do PT. A extraordinária votação de Marta Suplicy, que quase chega ao segundo turno, é também uma sinalização da onda de renovação que banhou os grandes centros. O país que emerge das ruas tem a cara mais oposicionista. O Congresso será renovado em quase 50%, com parlamentares mais qualificados, de acordo com a primeira análise dos perfis.
O que se pode constatar é um expressivo crescimento da racionalidade eleitoral. Os eleitores parecem cansados de tanto marketing, de tanta firulação, de tanto artificialismo. Não se conformam com pesquisas encomendadas, com índices manipulados e interpretações exageradas feitas por candidatos que as utilizaram. Os institutos de pesquisa, nesta campanha, encheram as burras e caíram do cavalo na reta final. Não adianta, agora, dizer que os erros foram pequenos.
A renovação estará presente ainda nas Assembléias. Em São Paulo, o índice de renovação será de 50%. Pelas primeiras leituras, não se trocou seis por meia dúzia. O perfil dos novos indica mais apuro, mais compromisso com o eleitor. No Rio de Janeiro, o voto para deputados foi eminentemente distrital, ou seja, optou-se pela micropolítica, a política voltada para os interesses da região, da cidade, do bairro. Mas nos lugares mais distantes dos grandes centros, percebeu-se igualmente um sentido lógico na decisão do eleitor. Uma onda de conscentização se espraiou por todos os lados. E mesmo as abstenções - em torno de 20% - mais altas que as de 94, denotaram a contrariedade de parcelas do eleitorado para com as formas e os perfis políticos, o que também se insere no contexto racional.
O País sai das eleições mais forte. Os cidadãos fizeram crescer as taxas de cidadania. E quem achava que a eleição seria facilmente ganha no primeiro turno, merece um puxão de orelhas. E rezar alguns padre-nossos pela comemoração antecipada.
- GAUGÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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