‘‘Num país onde passagens do artigo de um vago professor podem despertar tal celeuma em torno de governabilidade e golpe, fica manifesta certa insegurança em relação à questão da democracia.’’ Essas palavras, lidas por mim em ‘‘O Estado de S. Paulo’’, de 29 de julho, trouxeram-me de chofre memórias dos tempos de estudante. As lembranças vieram a tona porque o ‘‘vago professor’’, Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutorado pela Universidade de Harvard (EUA), foi meu mestre de sociologia nessa mesma universidade onde me graduei em Sociologia Política e Administração Pública. E pelo visto, se Fábio já era conhecido nos meios universitários, agora é que não pode ser denominado de ‘‘vago’’, tal a repercussão que causou na mídia com seu artigo sobre governabilidade e que foi distribuído recentemente num jantar que banqueiros e empresários ofereceram ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Portanto, essa autodenominação de ‘‘vago’’ só pode ser coisa típica da modéstia mineira.
Não tive acesso ao artigo, que parece foi pouco lido e muito comentado, mas li a entrevista do professor no jornal referido. Ocorreu-me, então, que a questão da governabilidade por ele levantada é da idade da América Latina. Aliás, eu prefiro falar em ingovernabilidade, mazela originada da nossa ‘‘embriogenia defeituosa’’ e que foi expressa em 1830 numa frase lapidar de Simón Bolívar: ‘‘A América Latina é para nós ingovernável.’’
Marcados pelo populismo, pelo clientelismo, pelo nacionalismo xenófobo, pelo paternalismo estatal, pela burocracia asfixiante, pela corrupção endêmica, pela cultura caudilhesca e autoritária, pelas desigualdades sociais, elementos que interagem para compor nossa cultura do atraso, a democracia é para nós bicho de difícil aclimatação em solo tropical. Resultado, ou tendemos a abusar da democracia ou nos cansamos dela com relativa facilidade.
Exemplificando: Juscelino Kubitschek de Oliveira foi um estadista democrático, antítese do caudilho centralizador e autoritário. Fernando Henrique Cardoso é outro raro democrata surgido nos cenários pátrios da política. Pergunte-se, porém, ao povo sobre quem foi um e quem é outro, seus acertos, suas contribuições para o progresso do Brasil. Possivelmente só se ouvirão críticas. Mas se for trazido do passado o nome de Getúlio Vargas, nosso maior ditador, a vaga memória popular funcionará e o Pai dos Pobres emergirá das sombras para continuar na história.
O professor Fábio também critica o atual presidente, dizendo que ele ‘‘poderia ter sido menos afável, menos solícito, mais atento à idéia da refundação política’’ (escapou-me ao entendimento essa ‘‘refundação política’’, acho que não fui uma boa aluna), em vez da pura e simples atenção à idéia de governabilidade’’. E apesar de criticar o presidenciável Ciro Gomes, no qual detecta ‘‘um elemento claramente antiinstitucional’’, ‘‘um traço pessoal de estouvamento que beira a irresponsabilidade’’, e dizer que ele personifica ‘‘a idéia do líder que se dirige diretamente às massas e peita as instituições’’, meu caro mestre afirma que ‘‘faltaria uma pitada de Ciro Gomes a Fernando Henrique’’.
O professor afirma ainda que em Itamar Franco o traço da imprevisibilidade seria um indicador preocupante com relação à governabilidade. Mas o cientista político dedica boa parte do seu raciocínio ao tetracandidato Lula. Se este fosse guinado ao poder faria perigar a governabilidade por conta de sua incapacidade para obter maioria parlamentar.
Diante dos candidatos que aí estão, das análises do meu professor, da tendência pendular da política brasileira onde se alternam tempos mais ou menos democráticos e tempos mais ou menos autoritários, e ainda observando as levas de brasileiros que estão deixando o País em busca de oportunidades em plagas mais promissoras volto de novo, com um vago mal-estar, ao pensamento de Simón Bolívar: ‘‘A única coisa a fazer na América Latina, é emigrar.’’
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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