Um triste retrato
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de outubro de 2001
Nilson Roberto Ladeia Carvalho 
Transcorrido ontem, o dia 16 de outubro é marcado, apesar de poucos terem conhecimento, como o Dia Mundial da Alimentação. Deveria ter sido, portanto, de comemoração. Afinal o alimento à mesa é qualidade e vida. No entanto, esta não é a realidade de milhões de pessoas em todo o mundo e, também no Brasil. O País produz o necessário para alimentar toda a população, mas boa parte passa fome e muitos morrem sem acesso à comida, um dos direitos mais básicos do cidadão, se é que se pode classificar direito de básico. Então, é bom para se refletir o porquê de brasileiros passarem fome.
Segundo dados, não surpreendentes, do Instituto da Cidadania - Projeto Fome Zero, o Brasil tem pelo menos 9,3 milhões de famílias que ganham menos de US$ 1 por dia, ou seja, são 44 milhões de pessoas na linha da pobreza cuja metodologia foi adotada pelo Banco Mundial.
A geografia da pobreza no Brasil mostra que cerca de 3 milhões de famílias moram na zona rural; 2 milhões vivem nas regiões metropolitanas e 4,3 milhões de famílias estão nas pequenas e médias cidades do interior. Por região, verifica-se que o maior contingente de pobres ocupa o Nordeste; e o Sudeste, a mais propalada e rica, abriga 2,6 milhões de famílias miseráveis.
Esses dados envergonham a Nação e mostram que a pobreza e, consequentemente, a fome não é algo ocasional. Está sendo gerada, há anos, no ventre da política econômica adotada pelas diversas equipes do governo federal, subordinadas aos interesses do FMI. E se alguém acha que é um quadro passageiro, engana-se! Esse cenário lastimável vem se agravando nos últimos anos com o crescimento do desemprego e o aumento de outras despesas não alimentares como moradia, transporte, saúde, educação, encarecendo o custo de vida.
Embora os produtores brasileiros possam produzir a comida necessária para a população, como mostram dados de empresas de pesquisas rurais, o País não consegue suprir suas necessidades básicas porque aposta num caminho oposto. A falta de subsídios à agricultura, por exemplo, ajuda a aumentar a concentração de renda e a deteriorar a distribuição de riquezas.
O Brasil sempre teve uma vocação para produzir e por muito tempo produziu, principalmente, com a ajuda governamental aos produtores rurais. No entanto, o fim do subsídio à agricultura e o incentivo ao modelo de agricultura de exportação, que privilegia os grandes, colocam em xeque a política para o setor, refletindo diretamente no estômago de toda a sociedade brasileira.
O País que se achava atrasado por subsidiar a agricultura prefere conviver com gente famélica, adjetivo ameno para caracterizar aquele que literalmente morre de fome. Enquanto isso, na Europa muitos países, incluindo os poderosos do G-7, não abrem mão de proteger seus agricultores, delimitando as porteiras desta fronteira política e ideológica.
No mundo e, em especial, no Brasil há fome não porque falte dinheiro, mas porque o dinheiro não é acessível à maioria da população. A situação somente não é pior porque há diversas iniciativas de combate à fome e à pobreza, realizadas por instituições públicas e não-governamentais. Garantir a disponibilidade e o acesso permanente de todos a alimentos saudáveis são uma responsabilidade conjunta dos governos e da sociedade.
E podemos, desta forma, começar em nosso próprio município discutindo uma política de acesso à alimentação de forma mais ampla com base na segurança alimentar. Esse tema pressupõe avaliar todos os serviços que oferecem alimentação, garantindo alternativas de produção ampliando a oferta de alimentos a quem precisa.
Este é um momento de reflexão, união e integração, visando assim potencializar as ações de cada entidade seja pública seja não-governamental, favorecendo aos que necessitam. Deve-se, ao mesmo tempo, manter em vista a busca do ideal que é obter um sistema econômico sem excludentes, em que cada cidadão tenha o direito de adquirir, no mínimo, seu alimento matando a fome de sua própria família.
- NILSON ROBERTO LADEIA CARVALHO é secretário municipal de Agricultura e Abastecimento de Londrina


