Não sei em que dia o Jornal vai publicar este artigo, se é que o publicará, mas o escrevi no Dia do Professor. Minha forma de homenagear esta classe de educadores é rememorar os meus anos de escola em minha pequenas cidade natal, em SC, e as duas professoras que todos lá conheceram e com elas aprenderam: Teresa Manfredini Acordi e Virginia Borges Coral. Falo especialmente de dona Teresa, pois foi com ela que estudei a maior parte dos meus primeiros anos de aprendizado. Por causa de sua influência junto das autoridades, ela conseguia livros até que reuniu valioso acervo e formou a biblioteca escolar.

Dona Teresa adotava uma metodologia própria de ensino, embora seguindo também a obrigatória determinada pelo MEC, e assim não se indispunha com os pedagogos e com o inspetor de Ensino, que periodicamente visitava as escolas. A biblioteca ficava permanentemente liberada depois das aulas, e por própria conta ela decretou que nos dias de chuva todo o tempo de aula era destinado a chafurdarmos nos livros. E ali ficávamos pelo tempo que quiséssemos. Ela não dizia, mas demonstrava que a metologia do MEC tinha muitos inutilidades, como as aulas de latim, da matemática de alta complexidade, a exaltação de certos "heróis da pátria", mesmo que o que haviam feito era comandar morticínios nos combates.

Ela sabia que muitas superficialidades não resultavam em proveito para o futuro daqueles meninos e meninas, então ensinava coisas mais práticas e mais úteis, e para isso incursionava por valiosos ensinamentos que beiravam até o ensino superior. Todos apreciavam isso, porque não obrigavam a deveres de casa e nem a provas. Os alunos gostavam de ir à escola, porque ali era um lugar de aprendizado que se mesclava com proveitosa recreação. Para certas coisas ela nos ensinava a decorar, como a tabuada, os regimes dos principais países, o costume dos povos - brasileiros incluídos, com suas peculiaridades regionais.

Sim, aprendíamos também coisas que eram do ensino superior. Assim ela formava cidadãos, por isso o lugar não era atrasado em consciência de cidadania - palavra desconhecida na época mas que se traduzia por patriotismo. Estudava-se Redação e Caligrafia, porque a beleza da escrita era fundamental num tempo em que as cartas eram a mais usual e elegante forma escrita de comunicação; estudava-se Moral e Civismo, e - o que era da tradição familiar daquela gente quase 90% descendente de imigrantes: o respeito às pessoas e aos bens alheios. As duas mestras eram respeitadas pelos alunos e pela população, e por natural consentimento tinham quase um poder patriarcal sobre a classe.

Temos um dever de gratidão para com os mestres escolares, embora muito tenha que ser feito para melhorar o ensino no Brasil, sobretudo reestudar o que deve e não deve ser ensinado aos alunos de todos os níveis, inclusive o superior e as pós-graduações. Penso na intensificação do ensino da solidariedade e do compartilhamento das boas experiências, sem o culto da concorrência predadora, que leva os indivíduos ao conflito e inclusive às guerras. E sem esquecer de uma melhor remuneração para o professorado do ensino médio, o que poderia ser obtido por um corte substancial nos prodigiosos vencimentos dos políticos e nos seus gastos exorbitantes.

WALMOR MACCARINI, jornalista

mockup