Houve um tempo no Brasil em que o pai chamava o filho de dez anos à sala e lhe pedia, diante das visitas, que declamasse a escalação titular do time pelo qual os dois torciam. O guri caminhava até o meio da sala, inflava o peito, olhava para um ponto infinito e, orgulhosamente, recitava: ''Gilmar, Mauro e Dalmo; Calvet, Zito e Lima; Doval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe''! Antes do último ''pe'' do Pepe, o pai já estava puxando os aplausos, sempre acompanhados de um beliscão na bochecha aqui, um elogio ali e um muito bem, querido da mamãe acolá. O moleque era dispensado e começava a guerra entre torcedores, corriam as apostas para o próximo Santos e Botafogo e a conversa se espichava noite adentro.
Tempo em que meu pai me levava à Ilha do Retiro para ver o Leão da Ilha tomar uma sova de Pelé e companhia, envolvendo-nos em uma atmosfera de tristeza e, ao mesmo tempo, alegria, pois torcíamos pelos dois times mas, acima de tudo, pelas tabelinhas entre o Rei e Coutinho, começando ali pelo meio do gramado e terminando no fundo das redes. Terminado o jogo, lá íamos nós até o Pina comer a peixada que alguém invariavelmente pagava pela ousadia de apostar contra o Santos.
Com o tempo, o futebol, como o Brasil, mudou e muito. Poucos são os garotos de dez anos que conseguem escalar seu time de cor e salteado. Ídolos andam escassos. O chamado futebol-arte vem sendo praticado por alguns garotos sob enormes riscos, que vão desde a bronca do técnico pela desobediência tática até a violência impune.
E se há impunidade dentro campo, fora dele a coisa tem descambado, como diria o Lalau (o Ponte Preta, por favor), para o perigoso terreno da galhofa. Peguemos, para exemplificar, o provável ataque aos cofres públicos perpetrado por um certo time do Rio de Janeiro. Questionado sobre os dólares depositados na Suíça, um dos atletas do esquadrão Três Quibes com Hortelã declarou que não poderia ter conta lá com os gnomos de Zurique, uma vez que nunca viajara àquele país. Bom, eu jamais fui à Suécia, mas tenho uma prima que mora lá. Ao perceber que a desculpa fora meio esgarçada, ele consertou tudo acusando algum boitatá de usar seu nome em vão.
Em um país que detém uma das últimas reservas florestais do globo, o uso da cara-de-pau não deve ser encarado com tanta surpresa, embora não devamos chegar ao ponto de querer lustrar a dita cuja com óleo de peroba. Se assim o fizermos, em breve o pai vai chamar o filho à sala e, diante das visitas, pedirá: ''Filho, recite a escalação daquele time da pesada''. E o filho, mesmo querendo se enfiar debaixo da mesa, obedece: ''Silveirinha, Ramos e Picanço; Rômulo, Hélio e Jacome; Axel, Frank, Bonfim, Vommaro e Heraldo''.
Ninguém aplaude, mas o silêncio pode ser interpretado como uma espécie de aprovação dos novos tempos.
ROBERTO BARRETO é jornalista em São Paulo

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