Um tal de povo - Gaudêncio Torquato
Um tal de povo
Gaudêncio Torquato
Enquanto a elite política se debruça sobre polêmicas soluções para se combater a pobreza e ganhar, como troco, uma casquinha de visibilidade - produto cada vez mais importante no horizonte eleitoral - no centro e nas margens da sociedade ocorrem importantes fenômenos, alguns capazes de influir intensamente nos eixos decisórios da Nação.
A greve dos caminhoneiros mostrou, por exemplo, que está ocorrendo um forte deslocamento do centro de gravidade do poder, com duas tópicas constatações: a cúpula do poder mostra-se fragilizada diante de forças que emergem no centro da sociedade e tradicionais entidades como as centrais sindicais, eixos de irradiação de idéias e pólos de mobilização social, perdem substância diante de novos núcleos de combate e resistência.
Ao se referir ao líder dos caminhoneiros como um tal de Botelho, o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, não quis, evidentemente, menosprezá-lo, mas sua expressão é uma fotografia nítida das interrogações e surpresas que tomam conta do topo da pirâmide política diante da imprevisibilidade de movimentos sociais de impacto.
As elites dirigentes ainda não se deram conta de algumas mudanças que se operam no País, cuja motivação não tem viés ideológico, mais se parecendo como efeito da marcha competitiva entre grupos e categorias que procuram preservar espaço numa sociedade industrial.
O presidente Fernando Henrique, com saber sociológico, diagnostica, embora tardiamente, o lockout dos caminhoneiros como fator natural de um país que se transforma numa economia de logística. Correto. Incorreta, porém, tem sido a visão da alta administração federal no que se refere ao tratamento dado às novas fontes de poder.
Lideranças emergentes em algumas categorias começam a despontar, mas continuam sendo relegadas a segundo plano. Antigos condutores de massas, como líderes de fortes categorias profissionais (metalúrgicos e bancários, por exemplo), perdem espaço para gestionários de trabalhos coletivos, inspirados no conceito do pragmatismo responsável.
O governo não os percebe, porque os olhos dos serviços de inteligência ainda estão injetados pelo sangue mortífero dos tempos da ditadura. Será que não se vê tanto no campo como nas cidades o florescimento de uma poliarquia, ou seja, a multiplicação de centros de decisão autônomos? O que vem a ser o Movimento dos Sem Terra, o movimentos dos caminhoneiros e outros que, sem fazer muito barulho, são capazes de alterar rumos?
Pequenos e médios proprietários, gerentes de meios de produção, categorias profissionais muito bem organizadas, que são extensões das classes médias, compõem uma imensa tuba de ressonância, que mostra indignação e furor. Basta ler as colunas de leitores de jornais para se dar conta do fluxo de raiva que irriga a sociedade. Uma raiva que parece não sensibilizar o governo.
Batendo pernas e abrindo braços no centro da lagoa, os agitadores de águas acabam levando as marolas até as margens, impregnando as periferias com marés de angústia e revolta. O resultado, que aparece no termômetro da rejeição da imagem governamental, respinga no perfil de toda a classe política, maculando, até, o conceito das instituições, como o Congresso, colocado por contingentes populacionais no poço da descrença.
A visão do governo e das elites dirigentes é ofuscada, ainda, pelos disparos da guerra fiscal entre os Estados. O arsenal de armas que se monta para a luta competitiva constitui ameaça ao pacto federativo, energizando apenas o topo da pirâmide social. Nunca se viram tantas acusações recíprocas, tanto bate-boca e tanto tiro de festim.
No meio e nas margens da sociedade, corre a seiva de uma floresta exuberante, invisível para quem está dormindo no cume. Vez por outra, gritos na floresta alertam autoridades sobre a existência de vida. Tomado pelo susto, alguém olha lá de cima, procura distinguir as vozes do barulho, e com cara de desdém, exclama: Ah! Não tem importância; é um tal de povo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
E-mail:[email protected]





