Pouco tempo depois do meu livro ‘‘O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto - a ética da malandragem’’ ter sido editado, li uma obra que achei extraordinária: ‘‘Subdesenvolvimento é um estado de espírito - a questão latino-americana’’, de autoria de Lawrence E. Harrison, tradução da Editora Record. Ao longo do trabalho fui me identificando com o autor por conta de sua análise baseada no princípio segundo o qual ‘‘a cultura, mais do que qualquer outro fator, explica por que alguns países se desenvolvem mais depressa e mais por igual do que os outros’’.
Harrison não se baseou apenas numa pesquisa bibliográfica para escrever o livro, mas também na sua experiência pessoal, ensejada por sua participação na Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, de 1962 a 1982. Durante esses vinte anos, dirigiu missões na República Dominicana, Costa Rica, Guatemala, Haiti, e Nicarágua. Saiu da Agência em 1982, tornando-se, então, professor visitante da Universidade de Harvard, no Centro de Assuntos Internacionais. Em 1984, foi designado, pela Liga Cooperativa dos Estados Unidos, vice-presidente para o Desenvolvimento Internacional. Formado pelo Dartmouth College e com mestrado por Harvard, Lawrence Harrison publicou vários artigos no Foreign Policy, New York Times, Washington Post, Christian Science Monitor e Boston Globe, entre outros.
Mesmo diante deste currículo, ousei enviar ‘‘O Voto da Pobreza’’ para o professor de Harvard, tendo obtido uma resposta extremamente gratificante. Ele leu meu livro, gostou, e avisou que me citaria no seu próximo trabalho. Isso com certeza seria impossível da parte da oligarquia do conhecimento brasileiro, instalada no eixo São Paulo-Rio, que do alto de sua arrogância, pernosticismo e preconceito, costuma ignorar o que se passa no resto do país. Para essa oligarquia, o ‘‘resto’’ é anonimato.
O professor Lawrence Harrison cumpriu sua palavra. Em 1992 publicou ‘‘Who Prospers - how Cultural Values Shape Economic and Political Success’’. Lá estava eu, na p. 40, acompanhada de Roberto DaMatta. Neste livro, Harrison voltava à temática cultural, mostrando como certos valores e comportamentos de cada sociedade influenciam seu progresso ou seu atraso.
Em abril de 1995 soube que o professor Harrison estaria em São Paulo, onde faria palestras na USP. Estava pronto meu ‘‘América Latina - em Busca do Paraíso Perdido’’, editado pela Saraiva. Viajei para a capital paulista e entreguei um exemplar do livro para Lawrence Harrison. Conversamos bastante, usando meu inglês destreinado, entremeado de espanhol e português. Um evidente sacrifício linguístico para mim e para ele, tudo devidamente assistido e felizmente auxiliado em termos de tradução por uma simpática funcionária do consulado americano, e por meu filho Bruno que me acompanhava. Mas valeu a pena conhecer aquele senhor que consegue conciliar tanta inteligência, lucidez e preparo, com objetividade, ética e simplicidade. Coisa praticamente impossível de existir nas nossas oligarquias do conhecimento, incluindo as oligarquias periféricas, que costumam imitar até os trejeitos e cacoetes das do centro.
De novo fui lida por Harrison, que me convidou posteriormente para participar de um congresso sobre cultura latino-americana, que se realizou na Costa Rica em junho de 1996. Como única representante do Brasil, lá pude conhecer alguns expoentes da intelectualidade da América Latina como, por exemplo, o cubano Carlos Alberto Montaner, que me presenteou com seu best seller ‘‘Manual del Perfecto Idiota Latino Americano’’. Estou certa de que a maioria daqueles intelectuais são desconhecidos por nossas oligarquias do conhecimento, sendo, portanto, ‘‘anônimos’’ em nosso meio universitário.
Agora saiu o terceiro livro de Lawrence Harrison, atualmente trabalhando no Massachusetts Institute of Technology (MIT): ‘‘The Pan-American Dream’’ (‘‘O Sonho Pan-americano’’). A esse livro, e ao do também norte-americano Stephen Haber, da Universidade de Stanford, intitulado ‘‘How Latin America Feel Behind (como a América Latina ficou para trás), a ‘‘Folha de S. Paulo’’ de domingo passado, caderno ‘‘Mais’’, dedicou várias páginas. Ali aparecem, além de menções elogiosas, críticas ásperas e contundentes, no fundo das quais subsiste o orgulho ferido dos que se recusam a encarar de frente os fracassos latino-americanos, e um certo corporativismo intelectual-nacionalista, que consagra como verdade apenas o que é dito nos redutos avançados do pensamento brasileiro, apesar destes só raramente serem capazes de alguma criatividade, limitando-se em geral a copiar modismos teóricos do exterior.
Em breve estarei recebendo ‘‘The Pan-American Dream’’, que me está sendo enviado por Lawrence Harrison. Assim, poderei emitir minha própria opinião. Mas pelo destaque e pela polêmica que já está causando no Brasil, estou certa que mais uma vez valerá a pena me dedicar ao pensamento Harrison, com o qual tenho tantas afinidades.

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