Um sonho a mais não faz mal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de fevereiro de 2003
Paulo Henrique Martinez 
O governo Lula não desperta temores, fantasiosos ou reais, como apregoavam e apregoam seus críticos mais ásperos. Instalado no Palácio do Planalto, para onde foi chamado para tentar salvar tudo aquilo que a história do PT apontava como o alvo a ser destruído, Lula faz acrobacias políticas para ''tocar o barco'' do País. Abraça as pessoas em aparições públicas, abre sua sala de trabalho à visitação popular, fala para plenários distintos, e até antagônicos, como em Porto Alegre e Davos, prega contra a fome no Brasil e no mundo, visita países e opina sobre a vida política da Venezuela e da Argentina.
Passadas as semanas iniciais do novo governo, e tendo em conta o histórico do PT, do presidente e o programa eleitos no ano passado, surge a dúvida se estariam sendo lançadas as bases para a superação dessa sociedade em crise, se ainda não houve tempo para tanto, ou mesmo se haverá.
Cauteloso, o governo Lula parece ir marchando devagarinho, procurando ter certeza de dar passos seguros e firmes, conforme demonstrou na participação da escolha dos presidentes do Banco Central, da Câmara dos Deputados e do Senado.
Neste processo, divergências no partido do presidente emergiram nos enfrentamentos entre parlamentares e dirigentes do PT e do governo. As contradições e conflitos internos do PT estão inscritos em sua história, desde a sua fundação. Este dado e as manifestações de insatisfação traduzem a ansiedade latente no seio do partido quanto ao engate que o governo Lula e seus aliados deverão promover entre o presente e o futuro.
A esperada e necessária distribuição de renda, cultura e poder, a geração de empregos e expectativas positivas de vida lograrão encadear um novo ciclo de desenvolvimento rumo a uma outra sociedade, mais justa e livre, o ''Brasil decente'' da campanha eleitoral?
A sensação de que o empenho governamental está voltado para a manutenção ''do que está aí'' e o revigoramento da situação que deveria ser superada, inquieta não apenas a esquerda do PT e lança dúvidas se o malabarismo político do presidente suportará, tal qual uma barreira de contenção, as pressões do conservadorismo e do continuísmo.
O Fome Zero, maior audácia na política externa e o contato da população com seu presidente, entre outras iniciativas, poderão converter-se em ''cabeças de ponte'' para enfrentar a inércia cultural, o distanciamento e isolamento das massas populares da vida política e o despotismo do poder conservador?
Um deslocamento do governo Lula e do PT que abra novos cenários históricos não depende apenas da vontade política de seus dirigentes e militantes, envolvendo outros fatores, ausentes na atualidade. Este deslocamento, porém, deve permanecer nos horizontes do PT, dos governos municipais, estaduais e federal, e de todos que aspirem uma mudança das condições de vida e trabalho no Brasil. Não se trata de dar uma chance ao governo Lula, ao PT e à esquerda, mas de forçar a porta da esperança pela transformação do mundo. Um sonho a mais não faz mal.
PAULO HENRIQUE MARTINEZ é professor do departamento de História da Unesp em Assis (SP)


