Um sistema BBB também para os políticos
Quando tanta importância é dada à eliminação do grampo telefônico em gabinetes governamentais, o programa Big Brother é uma amostragem de que as coisas da vida vida pública poderiam ser feitas às claras. A lei contempla o direito à privacidade - um deles o sigilo das conversas telefônicas - mas no caso dos homens públicos essa proteção legal tem servido também à causa de ocultar conversas comprometedoras. Nada deveria haver de segredo na administração pública, porque o que se discute e se articula nas salas fechadas das repartições deveria ser aberto ao público.
Como no Brasil não existem segredos de guerra e nada dessa natureza a proteger, então o zelo por ocultar conversas oficiais só deveria ocorrer em caso de estratégias policiais e alguns segredos de Justiça. As invasões por grampo telefônico ou outras escutas clandestinas são preocupações mais do universo das facções políticas e suas confabulações intra-muros, assim como os quadrilheiros também armam em segredo os seus esquemas. Se a privacidade é garantia constitucional - e recorda-se que o episódio Watergate, nos Estados Unidos, fez o presidente Nixon renunciar - nada deveria haver de reservado nos gabinetes públicos, porque a plena ciência de tudo ao povo não quebra o ordenamento legal, mas só o fortalece. Naturalmente que grampos podem revelar as falcatruas, tão comuns na esfera governamental, em todos os Poderes e em todos os seus escalões.
A invasão da privacidade dos cidadãos é que não pode ocorrer, embora hoje as instituições oficiais (caso do fisco) e do sistema financeiro tenham desnudado a vida das pessoas. No caso dos homens públicos, não seria nenhum despropósito instalar câmaras de vídeo e microfones abertos ao público dentro das salas dos governantes e seus membros mais graduados, para que a população pudesse ver e ouvir o que eles tratam e fazem. Se os integrantes dos poderes são denominados homens públicos, eles deverão ser públicos em todos os sentidos.
Cada vez mais, grandes empresas, bancos e outras instituições, vão abandonando salas fechadas e permitem que inclusive as gerências fiquem expostas, de forma a que todos se vejam. Como os governantes são empregados do povo - como dizia a recente propaganda eleitoral - os sigilos da esfera pública deveriam ser eliminados, com salvaguardas apenas para os casos muito especiais.
Percebeu-se, pelo experimento dos reality-shows que as coisas na administração pública poderiam ser mais transparentes. Porque, no caso, não seria quebra de privacidade mas um instrumento de transparência. Grampos telefônicos são condenados porque isto é de lei, porém a investigação maior não deveria ser sobre quem os faz mas sobre o que a ausência deles acoberta.





