A notícia é daquelas que causam indignação. O deputado pernambucano Severino Cavalcanti, do PPB, ameaça apresentar projeto que dobra os salários dos parlamentares. O vencimento atual, de R$ 8.280, vira ''apenas'' R$ 4.900 com os descontos de lei, segundo ele.
A proposta soa ofensiva no momento em que o governo eleito faz malabarismos para adaptar as demandas do País, que são muitas, ao orçamento magro de 2003. A conta de juros que o Brasil paga todos os meses aos seus credores deixa o caixa baixo, quase vazio, para investimentos fundamentais, como pagar aposentados, manter hospitais abertos, repassar verbas para escolas, atender crianças carentes, asfaltar estradas e sustentar a máquina administrativa inclusive remunerar as ''excelências'' de Brasília.
No orçamento do País para o ano que vem, só está cabendo um aumento do salário mínimo dos atuais R$ 200 para R$ 211. Se afiar a tesoura e sair cortando despesas, algumas importantes, o governo talvez chegue a R$ 240. Que seria um avanço modestíssimo.
O que propõe o deputado recém-reeleito por Pernambuco um Estado carente que demanda ações urgentes das autoridades não tem outro nome: é estelionato político. Como representante legítimo da população, o parlamentar, que se vê no direito de defender salário ''digno'' para si mesmo, poderia se indignar com as condições de vida dos brasileiros. Se anda difícil viver com R$ 4.900 (fora os auxílios-mordomias), o que dizer dos 68% dos brasileiros que se viram com R$ 100 a R$ 1.000?
O Dieese acaba de divulgar projeção para o salário mínimo que supriria em outubro as necessidades básicas de uma família padrão brasileira: R$ 1.270,40. Que tal um teste? O deputado poderia atravessar um mês inteiro com o ''salário ideal'' do País. Depois disso, falaria com mais conhecimento de causa sobre questões como sobrevivência e dignidade.
Ruth Meira

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