Um senhor para dois candidatos
O ministro da Saúde, José Serra, prepara-se para entrar na pista hoje, sem pompa nem circunstância. E sem o amigo mais ilustre ao seu lado. O fato de o presidente Fernando Henrique Cardoso estar na Rússia e, de quebra, pregando a união dos partidos que o apóiam, é o maior exemplo de que a hora de apostar todas as fichas em Serra não chegou.
Fernando Henrique ainda não virou a ampulheta para dar a largada à campanha. Preocupa-se em mostrar o seu governo. E, depois de duas campanhas, ele sabe que o eleitor também não está nem aí para a sucessão presidencial. Há tempo para tudo.
O Brasil que elegerá o futuro presidente ou está na praia, curtindo o verão a preços salgadinhos, ou nas papelarias, comprando o caríssimo material escolar dos filhos. Há também eleitores estudando, universitários irritados por causa do ano novo com gosto de semestre velho. Não estão interessados na política.
No mês que vem, hora de Carnaval. Mais uma vez, a política ficará em segundo plano. Nem adianta pensar que o brasileiro comum passará a se preocupar com os presidenciáveis já na quarta-feira de cinzas. Estará mais atento à escalação da Copa do Mundo do que às evoluções dos políticos. Em junho, em plena Copa, o futebol promete empolgar mais do que as convenções para escolha dos candidatos.
É. O presidente tem muitas razões para estar mais preocupado com o governo do que com campanha política antecipada. Por isso, pretende ficar olímpico, na posição de observador das campanhas de Roseana Sarney, do PFL, e de José Serra, do PSDB.
Por enquanto, Roseana tem a vantagem entre os governistas. É simpática, governa o Maranhão com firmeza e, talvez até por causa de sua candidatura, São Luís virou locação de novela das oito na Globo.
Serra é um novo BMW, mas chega com o motor engasgado. Lança a candidatura numa época em que o Congresso está parado e os políticos soltos no mundo. Falta a Serra saber agir de forma a conquistar o coração do eleitor. E, enquanto ele não demonstrar a que veio, o presidente continua impávido, como um senhor que tem dois carros. Os amigos de Fernando Henrique juram que ele adora o BMW, mas, enquanto o carro não anda, ele fica com dois: Roseana e Serra. Apostará no que estiver melhor para concorrer contra Lula, do PT.
DENISE ROTHENBURG
é jornalista em Brasília





