Um rock pesado e alucinante
Acusações e contra-acusações entre políticos, e destes contra o Governo e vice-versa, fazem parte do processo democrático, mas no Brasil isto já extrapola o normal e não é levado a sério pela população, que deposita credibilidade mínima nos parlamentares e governantes e gostaria, isto sim, de assistir a grandes debates sobre as questões que realmente interessam à vida nacional. O que se presencia, na esfera do Governo federal, são movimentações em torno da vida intestina do próprio sistema, convertido numa redoma que se circunscreve à esfera do próprio poder. O círculo oficial parece existir apenas em função de si mesmo, de auto-administrar-se e auto-sustentar-se, já esquecido de que há uma nação de 180 milhões de brasileiros, que o Governo existe em função dela e que é a este povo que a atenção governamental deve voltar-se. Mas ao contrário, foge do povo, como se fora um incômodo. Quando crises políticas irrompem e no Governo Lula houve muitas esse bloco fechado do poder mais coeso fica, significando que mais foca a atenção em si próprio, porque alianças e dissidências se interligam nos mesmos interesses. Aliados e adversários são substâncias da mesma qualidade e densidade, por isso dissidentes harmônicos, pela razão de que vicejam ao redor de idênticos anseios individuais e partidários e que, obviamente, não são os da coletividade. Esta apenas observa, contemplativa, na esperança vã de que algo milagroso e salvador irrompa do âmago desse reduto um sistema governamental fragilizado, pela ausência de autoridade e de austeridade, imerso na efervescência da disputa do poder pelo poder e centrado mais no ser e menos no fazer. Justamente por isso esse regime converte-se num temido poder, porque capaz de toda sorte de conchavos e a nação arcando com os prejuízos. Para manter essa roda viva há que rolar dinheiro, e este obviamente é subtraído da sociedade, por via do arrocho tributário. O povo paga para dar alimento à gastança, ao desperdício e à corrupção, que é uma espécie de amálgama que une aliados e antagônicos numa íntima disputa. Nessa arena, da qual ninguém se afasta, porque ali há abundância, assiste-se a corruptos denunciando corruptos mas nenhum deles deixando o banquete, porque nesse alegre festival cada qual quer desfrutar de sua fatia, sempre substanciosa, eis que a mesa é farta. No presente momento o presidente Lula de quem não se nega boas intenções acaba dançando conforme a música e, pouco adestrado, vive às trombadas, cambaleante, sem autoridade para impor cadência no ritmo da orquestra, que não é nenhuma sinfônica mas um conjunto de rock pesado e alucinante.





