Não há como negar que, à cada pleito, piora a representação popular. Dá para percebê-lo especialmente no pleito proporcional, alvo como sempre da enxurrada de votos nulos e em branco, o que certamente se repetirá. Mas também não dá para fazer analogia com o caso das eleições majoritárias. Volta e meia recordo da de 1962 em que concorreram nada menos de três ex-governadores Adolpho de Oliveira Franco, Bento Munhoz da Rocha Neto e Moisés Lupion. Havia ainda aquele que saiu na frente, Amauri de Oliveira e Silva (foi vereador em Londrina e deputado estadual e seria, mais tarde, Ministro do Trabalho de João Goulart) e que era o candidato mais forte ao governo no PTB, embora em disputa de espaço com Léo de Almeida Neves.
ANALOGIA Para quem conhece a história do Paraná não há como fazer analogia e que não conclua com o diagnóstico fulminante de que tudo piorou. Há algum postulante com o nível desses quatro, isso sem considerar que o quinto era Vieira Lins, do PSB, e que foi líder de Getúlio Vargas na Câmara? Da mesma forma não dá para comparar os atuais candidatos ao governo com aqueles que o disputaram em eleições anteriores, mesmo a de Paulo Pimentel ao vencer Munhoz da Rocha em 1965. O pleito vencido por Ney em 1960 reunia, além dele, o ético Nelson Maculan (recusou-se a deixar de apoiar Lott como exigia a UDN do norte que estava com Jânio Quadros) e ainda o mestre universitário Plínio Costa.
Recuando ainda mais no tempo, temos duas eleições: a de 47 em que Bento Munhoz da Rocha foi uma espécie de anticandidato para impor o contraste democrático já que Moisés Lupion era um trator eleitoral e a de 50 em que Bento venceu Ângelo Ferrário Lopes, dois engenheiros, um da filosofia e da epistemologia e outro das metas físicas, gestor excepcional. Se desse para unir os dois potenciais teríamos o ideal do nexo praxis-doutrina. Lembro da primeira eleição e de um humanista como Wilson Martins participando dos comícios no coreto da Praça Osório na luta meio quixotesca. Era a ''inteligentzia'' do Paraná aflorando, o corpo universitário na demanda pública e que Ney Braga, mais do que ninguém, consolidaria, desde a passagem pela Prefeitura da Capital.
POBREZA DE QUADROS Não se capta isso hoje em dia. Não só a universidade perdeu a expressão com a ocupação dos espaços pelo ''baixo clero'' como ainda a pobreza de quadros é manifesta na resistência que os mais sensíveis oferecem ao engajamento diante de candidaturas que nada expressam em termos de efetiva renovação. Participei de um debate na Universidade Federal justamente com os assessores econômicos dos candidatos e ali ficou a impressão, com a análise perfeita da evolução de nossa economia, procedida pelo mestre Borja Magalhães, felizmente ainda na ativa, o que nutre de QI a cátedra, da dificuldade de montagem do ''staff'' de todos os candidatos, apesar do brilho de Luis Eduardo Sebastiani, que já presidiu o Conselho Regional de Economia e que assessora Alvaro Dias.
A inteligência e o talento, por um imperativo ético, fogem da mediocridade desse pátio de milagres que é a feira de promessas de uma campanha eleitoral. Propostas como a de ofertar leite fariam corar um assessor escrupuloso pelo que tem de força diluidora e deseducadora. Um homem de ciência não pode, sem grave lesão moral, assimilar esse cortejamento primário do povão. Nesse ponto é que crescia a figura de Munhoz da Rocha, fazendo de cada discurso um fator de enriquecimento cívico das pessoas, recusando-se a fazer o jogo sórdido das promessas ridículas que apenas servem para aprofundar ainda mais o que há de baixa-estima na população e no hábito de ver no dirigente uma espécie de patriarca bíblico que tudo prevê e provê, o homem providencial, enfim. Insisto na tese de que o país que aposta em salvadores (Jânio, Collor, entre outros) não merece, em hipótese alguma, ser salvo.

mockup