Um protesto
preconceituoso
e equivocado
Lúcia Camargo
Ocupo este espaço para responder ao artigo de Sebastião Interlandi Júnior, publicado ontem nesta Folha. E o faço em respeito aos leitores do jornal, que merecem uma explicação, e não com a pretensão de alimentar uma polêmica estéril diante do elitismo equivocado e descabido do articulista.
Em primeiro lugar, o Comboio Cultural não é uma inversão de valores. Levar o artista aonde o povo está, falando a sua linguagem e mostrando a arte mais legítima e pura, de forma compreensível, é um dever e uma obrigação constitucional. Estamos levando aos municípios paranaenses espetáculos que vão cumprir a finalidade de formar platéias.
Assim como o uso prolongado do cachimbo entorta a boca de seu usuário, parece-me que as continuadas práticas de política cultural medieval que antecederam a do governo Jaime Lerner acabaram por criar em mentes esclarecidas conceitos equivocados.
O argumento preconceituoso em relação a colegas de trabalho da área de cultura – ‘‘opereta molambenta’’ – não merece comentários, apenas o registro da estupidez. Afinal, a direção musical da ópera do comboio é do maestro Osvaldo Colarusso, que durante vários anos dirigiu a Orquestra Sinfônica do Paraná, a ‘‘orquestra de verdade’’ que dá emprego ao senhor Júnior. Sem falar da participação, no projeto, de algumas produções do Teatro Guaíra, em Curitiba, como a própria ópera e o balé.
Destaco ainda a participação de oitenta artistas e vinte técnicos, nesta primeira etapa do Comboio. Até hoje, 88 municípios receberam os sete espetáculos levados pelos ônibus-palco. A média de espectadores por apresentação foi de 600 pessoas. Em algumas cidades como Francisco Beltrão, Marmeleiro, Jesuítas, Salgado Filho, Corbélia, Palotina e Terra Roxa mais de mil pessoas viram cada espetáculo. No último dia 11, a praça central de Clevelândia reuniu mais de 2.500 espectadores. E mais de oito mil pessoas viram o Comboio em Foz do Iguaçu.
Outra coisa: o projeto não ficou em cerca de R$ 2 milhões, mas em R$ 2,5 milhões, financiados parcialmente pela Copel através da Lei Rouanet. ‘‘Um valor modesto se comparado, por exemplo, às despesas de produção de um desfile de escola de samba de grupo especial carioca, que gasta R$ 2 milhões para apresentar, uma única vez, um espetáculo de, no máximo, 90 minutos’’, escreveu o ‘‘Jornal do Brasil’’ no dia 17, em notícia sobre o Comboio Cultural intitulada ‘‘Palco itinerante de cultura’’.
Mais: este dinheiro vai sustentar o Comboio durante um ano. Nesse período, o projeto visitará duas vezes cada um dos 399 municípios paranaenses. Esta crítica injusta ao Comboio Cultural chega justamente agora, quando o projeto já comprovou seu sucesso.
Quem testemunha são os artistas que levaram seu trabalho ao interior: ‘‘Foram shows de lavar a alma’’ (Luiz Antônio Ferreira, do Maxixe Machine); ‘‘Quem não tinha essa experiência está maravilhado’’ (Valdair José da Rosa, do grupo de dança); ‘‘Eu tenho 36 anos de carreira e nunca vi na minha vida uma reação tão positiva nas cidadezinhas do interior como esta’’ (Ailton Silva Caru, do teatro itinerante).
Por fim, atribuo essa primeira estocada – não deverá ser a última no Projeto Comboio Cultural, que tenho o orgulho de produzir – ao seu insuportável sucesso.
- LÚCIA CAMARGO é secretária estadual da Cultura

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