Se um homem, alegando buscar sua identidade, se fecha no solipsismo e recusa toda comparação com seus semelhantes, dizemos que enlouqueceu. Por que então a cultura brasileira, tão obcecada pela busca da identidade pátria, não tem o menor interesse pelo estudo comparado das psicologias nacionais? O ensaio clássico de Vianna Moog, ‘‘Bandeirantes e Pioneiros’’, que faz um paralelo entre a mentalidade nacional e a dos norte-americanos, é exceção que confirma a regra. Cinco séculos decorridos do Descobrimento, ainda não se escreveu neste país (ou, se alguém escreveu, ninguém comentou) um único livro que tente, a fundo, uma comparação de brasileiros e argentinos, de brasileiros e uruguaios, de brasileiros e italianos. Nem mesmo de brasileiros e portugueses: nossas idéias sobre este tópico ainda se baseiam, principalmente, em piadas de português.
De onde provém essa desproporção doentia entre nossa ânsia de uma auto-imagem e nosso desinteresse pela imagem do próximo? Nosso delírio de grandeza terá chegado a ponto de recusar medir-se num espelho humano? Ou, inversa e complementarmente, nos desprezamos tanto que tememos a comparação? Nossa obsessão de originalidade não será uma farsa que se abriga sob o manto de uma inconsciência narcisista?
Sem a menor pretensão de responder a estas perguntas, advirto que, quando um tema desaparece da bibliografia, é porque não interessa à liderança intelectual. E como nas ciências sociais a liderança nacional está na USP, é lá que devemos começar a investigar as causas da anomalia.
A vulgata uspiana, de fato, só admitindo como motores da história a luta de classes e a luta de raças transfigurada em luta de classes, teve, entre outros méritos que a consagram na devoção da intelectualidade, o de criar um fortíssimo preconceito contra os estudos de psicologia nacional. Até hoje a opinião letrada segue a velha tese de Dante Moreira Leite, O Caráter Nacional Brasileiro, que começa por declarar que o objeto designado no seu título não existe: foi apenas invenção de uma extinta, Volkspsychologie conservadora, afetada de tara metafísica congênita. A tese marcou época, inscreveu-se na legenda áurea uspiana em tons quase mitológicos.
Quem tem cara de se opor ao consenso dos doutores? Fulminado por esse decreto, o natural interesse humano de observar-se em comparação com outros povos extinguiu-se entre os brasileiros (não bastando, para ressuscitá-lo, os brilhantes ensaios de Roberto DaMatta, Você Sabe com Quem Está falando?, e de J.O. de Meira Penna, Psicologia do subdesenvolvimento, que, sem realizar propriamente esse confronto, sugeriam fortemente a sua necessidade).
Desse estado de coisas, resulta uma série de consequências desastrosas.
Em primeiro lugar, nossa autoimagem moral, que com Oliveira Vianna e Gilberto Freyre começara a se elevar ao nível de uma autoconsciência refletida e intelectualmente consistente, regrediu ao estado de uma grosseira mitologia coletiva sem respaldo na cultura intelectual e científica.
Por essa mesma razão, é uma imagem insegura e vacilante. Quando tentamos nos descrever para um estrangeiro, nunca sabemos se estamos dizendo a verdade ou repetindo lugares-comuns da propaganda televisiva.
E como na ausência de comparações não existe senso das proporções, continuamos a tomar como naturais e universalmente humanos certos costumes e valores (ou antivalores) que nos são muito próprios e resultam de uma história peculiar. Um deles (e escolho de propósito entre os mais repelentes, para enfatizar a urgência de estudá-los) é a nossa noção corrente de ‘‘realismo’’, que identificamos com descrença mesquinha e pessimismo agourento: nada faz um brasileiro sentir-se mais adulto do que a oportunidade de insuflar desânimo num jovem empreendedor. Outro é a mistura de adoração hipócrita e desprezo secreto pela cultura superior: nosso culto idolátrico dos escritores, mui significativamente desacompanhado de qualquer interesse pela leitura de seus livros. Outro, ainda, o ódio ao criminoso sem correspondente desamor ao crime: achamos normal exigir cadeia para os grandes sonegadores enquanto continuamos a praticar com a maior inocência nossa modesta sonegação de classe média. Para completar, o preconceito antigramatical: mesmo nos meios universitários, quem quer que conjugue os verbos corretamente se torna objeto de chacota.
Todos esses costumes nos parecem naturais e universais porque, não nos comparando com ninguém, não vemos que são ‘‘coisas nossas’’, mais nossas, mesmos, do que o futebol, o samba e o carnaval, meras reciclagens de importados. Tal como o peixe não sabe que está na água, o brasileiro não sabe que suas pretensas verdades universais são, para o restante do universo, apenas manias de brasileiro.
Mas a pior de todas as consequências de nossa recusa de um espelho humano é que ela nos deixa sem defesas contra qualquer cultura estrangeira que pretenda nos remoldar à sua imagem e semelhança - à imagem e semelhança de suas peculiaridades, algumas das quais podem ser bem mais doentias que as nossas. Se não houvesse no fundo de nós uma consciência reprimida que nos acusa de covardia narcísica, não cederíamos tão depressa às novas modas culturais que invadem nossa casa pela tevê, se pavoneando de globalismo e universalidade, e não passam, no fundo, de manias de americanos. Se tivéssemos a justa medida de nosso valor e desvalor, nem nos esconderíamos numa carapaça solipsística nem procuraríamos nos evadir dela mediante crises de macaqueação despersonalizante. Mas a obtenção dessa justa medida depende de consentirmos em estudar precisamente aquilo que, segundo o dogma uspiano, não vem ao caso.
- OLAVO DE CARVALHO é autor de ‘‘O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras’’

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