Um povo de 15 milhões sem pátria - Mansour Challita
Mansour Challita
A insistência dos tribunais turcos em executar o líder curdo Abdula Ocalan recoloca, mais uma vez, o problema curdo nas manchetes mundiais. Este problema se resume em poucas palavras. O povo curdo, que conta hoje 15 milhões de cidadãos, ocupa um maciço montanhoso de 530 mil quilômetros quadrados no centro do Oriente Médio, entre o Iraque, o Irã e a Turquia. E é justamente entre eles que esse território é partilhado (220 à Turquia, 190 ao Irã e 120 ao Iraque), não sobrando aos curdos nenhuma parcela de terra ou de liberdade. Cada vez que manifestam qualquer veleidade de emancipação, são cruelmente reprimidos. Muçulmanos, como os povos que os oprimem, os curdos diferem deles pela raça. Aqueles são semitas; o curdo é ariano.
Dá idéia da antiguidade desse povo o fato de que uma de suas cidades, Arbel, foi centro religioso há 3 mil anos, e mesmo então era considerada uma das cidades mais velhas do mundo. A história do Curdistão é a história de sua luta para libertar-se do jugo de seus vizinhos.
A montanha fez dos curdos homens vigorosos e combatentes intrépidos; mas essa montanha, subdividida por vales profundos e rochedos intransponíveis, favoreceu a formação de tribos e principados isolados mais do que de uma unidade nacional: o que facilitou a penetração e a predominância dos países vizinhos, que formavam impérios poderosos, como o otomano e o iraniano.
O drama do Curdistão vem desta posição geográfica: de um lado, a vizinhança de grandes impérios; de outro lado, nenhuma abertura sobre o mar.
Por causa dessa posição geográfica peculiar, o Curdistão nunca pôde contar com algum amparo externo, alguma aliança, pois para chegar até ele, qualquer aliado virtual teria que antagonizar e vencer diversos países poderosos. Quem iria pagar um preço tão alto para ajudar um povo oprimido? Na década de 20, a Grã-Bretanha queria ajudar a estabelecer um Curdistão independente, ligado a ela. Não demorou em desistir.
Por volta de 1945, a União Soviética renovou a experiência britânica. Estimulados por seu apoio, 20 mil curdos reuniram-se a 15 de dezembro de 1945 na cidade iraniana de Manhabat e proclamaram o nascimento da república curda. Cada vez que a nova bandeira era içada sobre um monumento público, um clamor imenso a saudava: Ó bandeira curda, meu desejo é ver-te em lugares sempre mais elevados.
Menos de dois anos mais tarde, a 21 de março de 1947, a mesma multidão se reunia na mesma praça, mas desta vez estava silenciosa e atônita. Contemplava o corpo do presidente da república efêmera, Kadi Muhamad, pendurado numa forca, havendo sido caçado e executado pelo Exército iraniano. A União Soviética, vendo o preço que teria que pagar para intervir preferiu deixar os curdos e seu destino.
Após a Primeira Guerra Mundial, a Conferência de Paz de Versalhes fez grandiosas promessas a todas os povos oprimidos, a todas as vítimas impotentes ou resignadas, a todas as consciências violentadas, a todas as liberdades esmagadas. Cherif Pachá apresentou as reivindicações curdas, com um mapa do Curdistão integral.
O tratado de SSvres de 1920 reconheceu aos curdos o direito de formarem um Estado independente. Mas o Tratado de Lausana, que substituiu o de SSvres, passou o problema sob silêncio. A Sociedade das Nações renegou as grandes promessas e consagrou a ordem eterna das coisas humanas: triunfo da força sobre a justiça e dos interesses sobre o ideal.
Não obstante, a luta pela emancipação prosseguiu, especialmente na Turquia, onde os curdos têm sido sempre mais rigorosamente oprimidos. Em 1930, os turcos foram tão longe na repressão que a Segunda Internacional, reunida em Zuricha, condenou-os publicamente. Era proibido aos curdos não somente falar a sua língua; mas pronunciar o mero nome Curdistão era passível da pena capital. Num discurso pronunciado então, um líder curdo proclamou: Os que não são de origem turca têm apenas um direito neste país: o direito de ser serventes, o direito de ser escravos.
Após mais uma revolta e mais uma repressão em 1937, respondeu Ismael Inonu, primeiro-ministro otomano, à ironia do orador curdo: Sim, só a nação turca possui direitos neste país, com exclusão de qualquer outra.
Para ajudar a libertar o Curdistão de tamanha tirania, qualquer país teria que fazer a guerra à Turquia, ao Irã e ao Iraque. O homem sendo responsável em primeiro lugar para consigo mesmo, por qual país iria sacrificar seus filhos, mesmo numa guerra justa, se nela não possuir interesse básicos? E isto é compreensível e humano. Mas que dizer da Organização das Nações Unidas, obrigada a proclamar a verdade e o direito, mesmo quando não possui meios para os fazer prevalecer? Reconheceu ela alguma vez o direito do povo curdo a sua terra, soberania e liberdade? Reclamou alguma vez contra os massacres que os dizimam?
Hoje, a ONU conglomera 185 Estados-membros. Santa Lúcia, com seus 616 km2 e seus 118 mil habitantes, é membro da ONU: Seychelles (278 km2 e 63 mil habitantes) é membro do ONU; Fiji, Granada, Barbados, Ilhas Maldivas são membros da ONU, geralmente sem ter feito esforço algum. Pois a Carta da ONU proclama o direito de todos os povos à independência e à soberania.
No entanto, o Curdistão, com seus 530 mil quilômetros quadrados e seus quinze milhões de habitantes, seus valores culturais e sua luta secular, continua legalmente inexistente. Lição melancólica sobre o jogo da política internacional que faz da ONU mais um instrumento a serviço dos poderosos que um apoio para os fracos e os oprimidos.





