Um pouco mais sobre doenças e curas - Ribamar Leonildo Maroneze
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de dezembro de 1997
Ribamar Leonildo Maroneze 
Seria Fritz o Dr. Fritz? Pode você, meu caro, dar forma ao espírito? Poderei também incorporar o espírito de Esculápio, grande curador da mitologia e sair por outras londrinas distribuindo a graça da cura espiritual, cobrando valores simbólicos, como o faz Dr. Fritz mas, com certeza, valores maiores que o SUS paga por uma consulta médica.
Os médicos são constantemente vigiados e exigidos até mesmo além do que se é conhecido, natural para quem assiste vidas humanas, em que um pequeno erro, comum a qualquer profissional, pode ser fatal. Por isso, qualquer atendimento ou tratamento médico em consultórios, clínicas, postos de saúde ou hospitais é documentado, dando respaldo tanto para o paciente como para o médico e a instituição. Nos Estados Unidos, tal respaldo chega a ser oneroso demais e encarece os serviços, é o Seguro Médico, fruto dos constantes processos movidos por pacientes, mesmo que sejam infundados, já que, sabemos, a maioria perde em tribunais comuns. Ou seja, a partir do momento em que alguém se propõe a tratar uma doença, não importa qual ou por que método, sem documentar o procedimento ou garantir assistência em caso de falha, é de responsabilidade da comunidade, e não só da classe médica, abominar e denunciar o fato. Portanto, não podemos dar cobertura a um ato ética e socialmente ilegal. Os médicos fizeram a sua parte.
Sabemos que uma grande parte das doenças são psicossomáticas, ou seja, um distúrbio de ordem psicológica refletido em algum órgão ou região do corpo. Estas costumam resistir à terapêutica sintomática ou específica para o órgão queixoso. O tratamento mais eficaz seria sessões de psicoterapia para uma abordagem global. Esta terapêutica de um modo geral é longa, tornando-se dispendiosa e o paciente geralmente é resistente, já que muitas vezes sente-se invadido em sua vida pessoal e pensa estar sendo tratado como louco.
Não raro, desiste deste médico que indicou a terapia correta e procura outro, que novamente inicia com a medicação sintomática, dando origem a um ciclo interminável. Estas pessoas, em sua maioria, são humildes, com baixo nível sócio-econômico-cultural. Ao fugirem da terapia convencional, encontram no misterioso e desconhecido, na entidade suprema, a cura para seus males. Seu psique abalado finalmente encontra em quem se apoiar. Com o médico isso não acontece, porque: 1) A demanda do atendimento previdenciário não permite contato e relacionamento médico-paciente sólido. 2) O médico perdeu sua posição na sociedade ao deparar-se com jornadas exaustivas e baixos salários. 3) Cada dia mais surgem denúncias quanto a supostos erros médicos, que nem sempre se confirmam.
Portanto, concluo, sem medo de dizer, que estas pessoas são facilmente manipuláveis, o que se prova pelos contos do vigário, os shows de hipnose no Gugu e as curas do Dr. Fritz. Nos hospitais, todo material cirúrgico utilizado é passado por um processo custoso e demorado de esterilização, modo de evitar a infecção hospitalar. Ao mesmo tempo, antibióticos são administrados por profilaxia em todo procedimento e, se há infecção prévia ou então estabelecida, o esquema é ampliado. Porém todas estas medidas não impedem que microorganismos que colonizam o ambiente hospitalar infectem a ferida e o indivíduo e, aqueles, sabemos, são extremamente resistentes aos antibióticos, muitas vezes incontroláveis, culminando com a morte do paciente por sepse.
Mas com Dr. Fritz isto não acontece, ele não trabalha em um hospital, mas sim em um galpão improvisado e o pior, cercado por centenas de pessoas enfermas expelindo microorganismos os mais diversos. E, se o homem é criador de suas próprias doenças podendo desfazê-las pelo poder da mente, pergunte para estas pessoas a quantas doenças ela está sujeita, ou melhor, alerte-as, para que as possa evitar pelo seu poder mental. Só se combate com eficiência aquilo que se conhece. E se Dr. Fritz consegue evitar o que nenhum hospital de milhões de dólares evitaria, ele não é somente um médico, um espírita, um charlatão, ele é um mago, bruxo, uma entidade, Jim Jones ou Crowley?
Infeliz comparação das atuais curas espirituais com o grande curador Jesus. O mais simples e ingênuo dos cristãos sabe que tais curas bíblicas, muitas no sentido figurado, foram movidas pela fé. Já que infelizmente não temos Jesus fisicamente aqui, mas temos a fé e, aqueles que a possuem, terão a cura de seus males psicológicos tanto nas mãos do Dr. Fritz como na mira de uma simples benzedeira, com uma mandinga ou sob os cuidados de um habilidoso médico. E mais, a cura pela fé não necessita de cortes sépticos com sangramentos cinematográficos e técnica vicking do martelo e formão. Ela se faz pela subjeção.
Mas até Jesus nos chamaria de idiotas se quiséssemos acreditar que um tumor de células malignas, mesmo que confinado no sítio primário, pudesse ser retirado sem uma cirurgia ampla com todos os cuidados para se evitar metástases por implantação ou disseminação pelo sangue.
Foi por isso que Deus dotou os homens de inteligência, para que pudesse treiná-la neste campo e curar seu semelhante através da habilidade e tecnologia por ele desenvolvida.
Ao mesmo tempo, outros, pela liberdade humana, se privaram de tal treinamento, sendo os ignorantes que se entregam a falsas promessas aumentando a morbi-mortalidade destas doenças orgânicas, onerando o sistema, impedindo avanços na medicina preventiva.
Se nas salas de cirurgia os médicos são ajudados por colegas, enfermeiros e sofisticados equipamentos invisíveis, pudera eu ser dotado de olhos não carnais para poder observar através da tênue cortina, conseguiria enxergar quem os tirou dos hospitais sucateados do SUS ou faria um pedido para o Além, para que ampliasse esta ajuda para pequenos hospitais do interior que, desprovidos de recursos humanos e materiais, deslocam seus pacientes para os grandes centros promovendo o caos que vemos no atendimento público.
Sendo assim, que venham os espíritas, mas que venham também os recursos financeiros para o atendimento médico, treinado, eficiente, atencioso, brasileiro; mas isto é uma outra história, já contada por nossos avós e outros em palanques antes daquele show sertanejo tão bem anunciado nos meios de comunicação...
RIBAMAR LEONILDO MARONEZE
Acadêmico do sexto ano do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina.


