Um porre de realidade
Fernando José Dias da Silva
Na campanha eleitoral, todo o dia é 1º de abril. Às vezes, os candidatos saem da média e apresentam discursos bem elaborados e até programas que parecem consistentes. Mas agridem sempre a verdade porque prometem o que não podem cumprir. E eleição municipal, como essa de outubro que vem, é perfeita para que os políticos exerçam suas habilidades de prestidigitadores.
Agora, por exemplo, é a temporada da segurança. Não há candidato a prefeito que não tenha a sua receita perfeita para acabar com a violência. Ninguém vá imaginar que um número tão grande de candidatos esteja escamoteando a verdade. O fato é que eles são descuidados. Na correria da campanha é até natural que esqueçam que a atribuição de cuidar da segurança é do governo do Estado e não do governo municipal.
O que fazer? Botar todos na cadeia? Proibir a propaganda nas ruas e na televisão? Eleger só aqueles que têm carteirinha e fazem parte do sindicato dos sábios? Ou, melhor ainda, acabar de vez com esse processo de escolha já esclerosado?
Talvez o melhor não seja fazer nada. Deixar o barco correr durante a campanha e prestar mais atenção depois, quando os eleitos já estiverem nos seus cargos. Com a cabeça mais fria pode-se pensar melhor na questão. Em uma articulação, na possibilidade de uma articulação positiva entre a participação dos cidadãos e a ação dos eleitos exercendo realmente suas funções de representantes.
É claro que o tema não estará nos comícios. Mas o que está acontecendo na realidade é uma lenta e insidiosa degradação da representação, que vem se transformando em mera delegação feita aos eleitos como uma espécie de cheque em branco, com validade por muitos anos, o tempo do mandato.
Pode-se dizer que sempre foi assim. É verdade, mas atualmente o cheque em branco dado por delegação tem muito mais fundos. Ninguém elege um candidato para que ele represente uma empresa por exemplo, a não ser que seja o próprio dono da empresa ou o filho do dono da empresa ou ainda um puxa-saco dos dois. Isso não é mais delegação é confisco puro e simples de poder.
O sistema representativo não pode funcionar, no sentido preciso do termo, se não há o que representar. Se a democracia de representação não tiver uma participação ativa do cidadão o sistema começa a ficar manquitola. O perigoso é que pode existir meia democracia, ao contrário da gravidez, quando não acontece situação intermediária. Alberto ‘‘El Chino’’ Fujimori, eleito pela terceira vez pelo voto, está aí para não nos deixar mentir.
Esse distanciamento entre eleitor e eleito provoca sempre o desinteresse pela política, o fastio pela escolha eleitoral, a repulsa em participar, em se misturar com essa gente que é tida como corrupta, venal, inescrupulosa. Do outro lado, ocorre também um processo perverso. Mesmo os eleitos bem intencionados não conseguem ouvir mais a voz rouca das ruas. Demoram a tomar providências, ficam aparvalhados quando acontece alguma coisa que não está na agenda dos palácios refrigerados. Se assustam até com o inusitado.
Um exemplo? Fácil. As tensões sociais são crescentes faz tempo, mas o governo só começou a se preocupar com as manifestações do MST, em abril. E precisou tomar um porre de realidade, nos últimos dias, ao ver pela televisão o sequestro do ônibus no Rio para começar a pensar em tomar atitudes.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é comentarista político da Rádio Joven Pan em São Paulo

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