O presidente do Banco Central, Gustavo Franco, saiu de cena nas pontas dos pés, como bailarina bem treinada, mas sem nenhuma explosão de criatividade artística ou dramática. De qualquer forma, deixou o seu saco de maldades no palco, para ser usado por seu substituto ou por qualquer outro integrante desse corpo de baile que anda tropeçando nas próprias pernas.
Talvez o que a platéia não saiba é que o famoso saco de maldades do Gustavo está vazio. Não tem mais serventia. O professor Eduardo Gianetti da Fonseca diz que o governo não tem mais nenhum coelho na cartola que possa usar para reconquistar a credibilidade externa. ‘‘O Brasil é um pneu careca em uma estrada de cascalho’’, explica o economista. ‘‘Os juros estão muito altos, não há outro país no mundo que ofereça essas condições e, se com tudo isso, o governo ainda não consegue credibilidade, é muito difícil mudar essa posição.’’
Essa é uma opinião otimista perto daquela externada pelo chefe de pesquisa sobre mercados emergentes do ‘‘Bank of America’’, Richard Grey, segundo a qual os mercados chegaram à conclusão de que o Brasil é ingovernável. Essa é uma questão interessante. Verdade que o País é mal governador no âmbito federal, estadual e municipal. Mas será que não é mais do que isso. O país sendo governado sim. Mas não pelas pessoas que andam ocupando os palácios.
É claro que agora o mais importante e prioritário é apagar o incêndio. E saber direitinho como é que se toma uma decisão da envergadura de trocar o presidente nem bem teve tempo de desfazer as malas e voltou correndo para Brasília. Será que ele não sabia de nada? Será que a figura mais importante da República não foi avisada? Ah, pode ter sido uma manobra de despistamento.
Fernando Henrique sai do Rio de Janeiro hora do almoço declarando que nada vai mudar; vai para Mangue Seco no litoral, na divisa da Bahia com Sergipe, e não tem tempo nem de botar a sandália havaiana porque tem de voar para Brasília. Uma coisa muita estranha.
Fernando Henrique afirmou peremptoricamente que todos os contratos vão ser cumpridos. Mas tem gente dizendo que o principal deles o contrato social, anda sendo desrespeitado em todos os cantos do mundo em benefício do sistema financeiro internacional criando uma crise que já colocou 40% do planeta em recessão.
Esse pessoal considera que a globalização financeira aumenta a insegurança econômica e as desigualdades sociais, que evita e diminui a soberania dos povos, das instituições democráticas e dos Estados. Por isso é necessário e possível, para os cidadãos, fazer prevalecer o interesse público sobre os interesses financeiros e das empresas transacionais.
O último número do ‘‘Le Monde Diplomatique’’ informa que foi criada na França e, ainda esse mês será criada na Itália, a ‘‘ATTAC’’, Associação pela Taxação de Transações Financeiras e pela Ajuda aos Cidadãos. A entidade, além de pedir a taxação, prega a regulamentação do fluxo e das operações financeiras, o fim dos paraísos fiscais e fiscalização sobre a especulação com moedas. Já é um começo.
FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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