Um pequeno ensaio sobre o desamparo - Paulo Briguet
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de julho de 1998
Paulo Briguet 
A fragilidade do ser humano é algo que não deixa de surpreender. Nos tempos antigos, diante do inexorável drama do nascimento-morte, havia a certeza de que nossa casa era o centro do universo, destinado a girar simetricamente sobre as cabeças dos homens.
A ciência provou o contrário. Nossa casa não é mais que uma bola-de-gude insignificante, girando em rumo provisório, mergulhada em um universo que, embora maravilhoso, oscila entre hostil e indiferente.
Há poucos dias, o jornal mostrou aterradoras e belas existências: as estrelas-crianças, imensas fornalhas cósmicas.
A fragilidade do homem se manifesta desde os primeiros momentos, na singeleza de seu aparecimento. No desamparo que caracteriza a vida.
Com o peso de 3 quilos e 135 gramas, nasceu uma garotinha de nome russo, Sasha. Com o peso de 2 quilos e 370 gramas, veio ao mundo um menino de nome romano, Juliano. A primeira, tratada como princesa, foi do ventre materno para um quarto rosa de 80 metros quadrados. O segundo, embora viesse depois a ter nome de imperador, foi do ventre materno para uma caixa de sapatos. Sasha teve todos os cuidados dignos de uma aristocrata Romanov, antes de Lênin: veio à luz na Clínica São Vicente. Juliano foi achado por uma dona de casa na calçada, e atendido às pressas no Hospital do Trabalhador. A vinda de Sasha emocionou milhões de fãs de uma conhecida apresentadora e ex-modelo. A chegada de Juliano causou revolta e sentimentos enternecedores na dona de casa, e depois na equipe de enfermagem do hospital, e depois em duros policiais, e depois em leitores dos jornais matutinos.
Juliano foi exposto ao frio e à ameaça dos cachorros de rua. Sasha foi exposta às câmeras, ao marketing e à sanha da indústria cultural. Ambos saíram do líquido amniótico para a atmosfera da mídia.
Como serão a princesa e o plebeu daqui a 20 anos? Que papéis terão na bola-de-gude chamada Terra? Daqui a 20 anos, e daqui a 40, e daqui a 80, haverá uma gravidez tão acompanhada quanto a que gerou Sasha? Haverá uma gestação tão solitária quanto a que criou Juliano?
Há milhares de anos, um bebê, que por acaso salvaram da morte, cresceu e libertou seu povo, fazendo-o despertar de uma noite de escravidão. Era este mesmo mundo, esta mesma bola-de-gude, que Sasha e Juliano agora habitam, ampliando a algaravia de vozes e números, tão frágeis como nós e Moisés.
O nascimento - qualquer nascimento - merece uma missa de Mozart, em dó menor, o tom dos dramas humanos, da angústia da consciência, da busca por alegria. Uma alegria que pode vir quando menos esperamos, do quarto de 80 metros quadrados ou da caixa de sapatos. A alegria que é nascer e dar continuidade ao tempo, ainda que na diminuta e hostilizada Terra. A alegria possível, mesmo que sobre o planeta que não libertou a humanidade. A alegria, apesar do desamparo.
- PAULO BRIGUET é jornalista da Folha


