O início da vacinação de profissionais da atenção primária do SUS (Sistema Único de Saúde) com a Butantan-DV marca um momento único na política pública de enfrentamento da dengue no Brasil. Trata-se da primeira vacina contra a doença em dose única no mundo, desenvolvida por uma instituição pública nacional e aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o que confere ao episódio peso científico, sanitário e institucional.

A decisão de priorizar os trabalhadores da linha de frente da atenção básica é coerente com a lógica do SUS. São esses profissionais que mantêm contato direto e contínuo com a população, especialmente em regiões mais vulneráveis, e que desempenham papel central tanto na prevenção quanto no manejo da doença. Ao protegê-los, o sistema reforça sua própria capacidade de resposta diante de um agravo que, ano após ano, pressiona os serviços de saúde.

As doses começaram a chegar aos profissionais de saúde da atenção primária na segunda-feira (9). A vacina foi testada para ser aplicada em pessoas com idade de 12 a 59 anos.

Em cerimônia na capital paulista, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que a imunização abrange todas as equipes multiprofissionais de unidades básicas de saúde, incluindo agentes comunitários, enfermeiros, médicos e demais profissionais cadastrados.

Para imunizar os profissionais em todo o país, o ministério adquiriu, ao todo, 3,9 milhões de doses.

A vacina utiliza a tecnologia de vírus vivo atenuado, presente em outros imunizantes em uso no Brasil e no mundo, como a vacina tríplice viral e a vacina contra a febre amarela.

De acordo com a avaliação técnica da Anvisa, a Butantan-DV apresentou eficácia global de 74,7% contra dengue sintomática na população de 12 a 59 anos. Isso significa que, em 74% dos casos, a doença foi evitada por conta da vacina.

A dose também demonstrou 89% de proteção contra formas graves da doença e contra formas de dengue com sinais de alarme, conforme publicação na The Lancet Infectious Diseases.

Em janeiro, o Instituto Butantan publicou ainda uma pesquisa na revista científica The Lancet Regional Health - Americas que demonstrava que a vacina poderá ajudar a reduzir a carga viral ─ a quantidade de vírus ─ em pessoas infectadas pelo patógeno, o que previne o agravamento da doença.

Importante lembrar que esse importante avanço científico não elimina desafios. A vacinação, por si só, não substitui políticas contínuas de controle do vetor, saneamento básico e educação em saúde. A distribuição das doses, inicialmente voltada a um público específico, exigirá planejamento rigoroso caso haja ampliação futura para outras faixas da população.

A introdução da Butantan-DV no SUS sinaliza um caminho consistente: o fortalecimento da ciência pública, a valorização dos profissionais de saúde e a busca por respostas estruturais a problemas crônicos.

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