Um passo ainda muito tímido
Um misto de satisfação cívica e frustração política. O ato histórico da cassação de Roberto Jefferson pode ser resumido num avanço da democracia e, de certa forma, numa manifestação, ainda que tímida, de maturidade dos deputados. Está longe, convenhamos, de redimir a classe política. E apenas engatinha na largada para o longo caminho em busca da profilaxia que deve ser feita no Legislativo. Mas é um fato importante. O cenário da votação, contudo, não pode, nem de longe, ser comparado à memorável cassação de Collor, que lavou a alma da nação. Talvez porque exatamente ontem, data da cassação de um corrupto, o Brasil regrediu e se apequenou com um ato que acena para a impunidade que tanto amedronta e deprime os brasileiros de bem. Nada mais paradoxal: antes mesmo de a Câmara iniciar o julgamento de Jefferson eis que o Supremo Tribunal Federal (STF) concede liminar a deputados do PT, acusados de práticas tão ilícitas quanto as de Roberto Jefferson, que pelo menos as denunciou. Seis deputados do PT, ameaçados de cassação, ganharam ontem, pelo menos o que se pode chamar de sobrevida. Graças a essa liminar, concedida pelo presidente do STF, ministro Nelson Jobim, os parlamentares conseguiram suspender, temporariamente, a tramitação dos processos na Câmara. A decisão provocou constrangimento e foi vista como uma intervenção do Judiciário no Legislativo. Para quem acha que a Justiça brasileira é lenta, vale observar que nada foi tão ágil quanto o referido deferimento: o pedido deu entrada no Supremo entre 20 horas e 21 horas do dia anterior e de manhã já estava sacramentado. Jefferson está fora. Mas os brasileiros esperam muito mais do que a punição de quem denunciou. Os brasileiros ainda não autorizam comemorações; esperam que todos os envolvidos sejam punidos dentro da lei. Que ninguém, dessa modestíssima e acuada CPI, venha à mídia para estufar o peito e dizer ''eliminamos um corrupto''. Apenas um, em meio a tantos, é uma vitória de Pirro, quase uma mentira. Falta muito, principalmente descobrir a origem dos dinheiros que passearam pelas em malas e cuecas de petistas e partidos aliados. Falta o esperado desprendimento dos membros da CPI, para que não recuem diante das primeiras investidas do governo na sua habitual e competente blindagem para proteger pessoas que agiram de má fé e que estão ainda saltitantes tanto no Legislativo como no Planalto. A cassação de Jefferson não é, com certeza, o alvorecer de um novo tempo. O obscurantismo ainda toma conta de processos em andamento, permanecem as chantagens e as mentiras. Há algo turvo nas planícies de Brasília. Que Deus esteja ao lado dessa CPI. Assim quando alguém tentar eliminá-la ele no-la devolve com força, pois ultimamente ela tem andado muito relutante.





