Um Paraná à margem
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de setembro de 1997
Fernando Ribas Carli 
Em sua plataforma vitoriosa, o Partido Socialista francês tocou fundo nos brios do velho orgulho gaulês ao lançar um desafio: ganhar a batalha da inteligência. A motivação era uma só: criar um ambiente para os jovens a envolverem-se com as inovações científicas e a iniciativa tecnológica. E funcionou. De imediato, os socialistas, fixaram como meta um número de 2,5% do PIB em pesquisa, a remodelação total dos liceus e universidades e, por fim, criar 700 mil empregos preferencialmente para os jovens - 350 mil no serviço público e outros 350 mil na iniciativa privada.
Há um outro desafio na pauta do PS e que está comovendo os franceses. É a simplicidade de sua proposta para a agricultura. O primeiro ponto é o de tentar atrair jovens para assentamentos. E o segundo é praticamente uma revolução de métodos. Nada de agricultura intensiva, baseada na busca de produtividade a qualquer preço e que se dane o meio ambiente. Não a agricultura que além de cumprir sua função econômica e social terá de ir ao encontro de uma aspiração da cidadania como um todo. Assim, será subsidiada aquela agricultura que tenham como perspectiva conciliar a produção, a saúde pública, o emprego e o meio ambiente.
Feito este preâmbulo, vamos a um fato simples e lamentável que nos remete ao descaso, ao menosprezo, à irresponsabilidade com que as autoridades federais estão tratando a questão da formação dos jovens, especialmente no campo agrotécnico.
Mais grave ainda: a discriminação flagrante com que o Paraná se coloca no mapa das Escolas Agrotécnicas Federais. Enquanto Estados, como Minas Gerais, tem 11 dessas unidades em pleno funcionamento, só agora o Paraná recebe três desses estabelecimentos de ensino.
E quando parecia que haveria motivos para comemorações nos deparamos com a Medida Provisória nº 1.549-32, que repassa aos estados e municípios todos os encargos de manutenção e custeio das escolas agrotécnicas criadas a partir de agora (as do Paraná são atingidas pela medida), enquanto as 46 que já estão em funcionamento em outros estados continuarão sendo mantidas pelo Governo Federal. Aliás, esta tem sido uma marca do Governo FHC, o corte sistemático de recursos para educação em todos os níveis. É até desumano que um emérito professor, um PhD com prestígio no mundo acadêmico tenha uma visão tão estreita do que a Educação representa para o desenvolvimento e a soberania de um povo.
E é este mesmo Governo que nos incita a aderir à globalização, vendendo esta mística como uma determinação do destino dos povos, numa visão perigosamente fundamentalista da história. Ora, o que se conhece por globalização hoje é uma guerra comercial sem trégua: é o recrudecimento do protecionismo como jamais se viu na história capitalista, são os países industrializados e capazes de manipular tecnologia e capitais que dão as cartas nesta chamada ordem global.
Para chegar ao mercado mundial em condições de competição é preciso primeiro que tenhamos um mínimo de soberania, um mínimo de auto-suficiência tecnológica, e, pelo menos uma ou duas gerações de profissionais capazes de introduzir no produto mais criação e inteligência do que matéria prima. Se não for assim é melhor que continuemos sendo um mero produtor de produtos alimentícios in natura, um País que ainda vive a época do extrativismo.
Um rápido exame no ameaçador desequilíbrio da balança comercial pode dar uma idéia de como alguns gênios da equipe econômica estão brincando com algo muito sério. É sensato que tenhamos gasto em 1996 mais de US$ 5 bilhões em comida e que nesses seis meses de 97 tenhamos gastos outros US$ 3 bilhões com alface, alho, merluza, arroz, feijão, cacau, cebola, algodão, milho, entre outros produtos dos quais sempre fomos exportadores.
Como explicar aos jovens brasileiros do Paraná que teremos de ir ao mercado global para comprar tudo e que os empregos que lhe foram prometidos estão sendo dados aos argentinos, chineses, holandeses, tailandeses? Filho de agricultores, ligado ao campo até geneticamente, o que este jovem quer é uma chance de aprendizado, de ser colocado diante das mais modernas tecnologias, as mesmas que foram responsáveis pela redenção de muitas nações, hoje poderosas do ponto de vista econômico e justas socialmente.
Mas mais difícil é explicar como um Estado tão forte economicamente não tenha nenhuma escola agrotécnica federal, enquanto já estão em funcionamento 46 em Estados com muito menos vocação agrícola. As três unidades construídas em Dois Vizinhos, Umuarama e Guarapuava, agora terão de ser bancadas pelo Estado ou então pelos municípios onde estão sediadas.
É mais uma discriminação injustificável com o Paraná, um Estado que tem apenas uma Universidade Federal contra cinco Universidades Estaduais, enquanto em outros Estados o quadro é exatamente inverso. São muitas as dívidas da União para com o Paraná, mas esta nós deixaremos para o registro da história.
É nosso dever, em nome dos jovens de hoje e das futuras gerações, fazer valer o princípio da equidade que deve vingar entre as unidades da Federação. Para isso, a unidade de todas as forças políticas e da sociedade civil é fundamental para sensibilizar a tecnoburocracia federal, sempre cheia de razões e acima da realidade nacional.


