Os que no Brasil ainda se apegam à utopia comunista deveriam dar uma olhada na realidade e conferir o caso de Hong Kong, já que o fim do Império Soviético e a queda do Muro de Berlim não foram suficientes para convencê-los de que os ensinamentos de Marx e outros utópicos só podem permancer atualmente em termos de estudos teóricos clássicos, a serem ministrados para estudantes que se interessarem em conhecer uma História das Idéias. Afinal, Hong Kong é mais um exemplo gritante do quanto o liberalismo beneficia as sociedades onde funciona, e a crítica das esquerdas brasileiras ao neoliberalismo significa apenas que esses grupos não sabem o que é liberalismo do qual falam como se fosse o demo em pessoa. Se soubessem, compreenderiam que nossas mazelas residem justamente no fato de estarmos longe de possuir um sistema liberal. De fato, ainda temos que suportar um sistema pré-capitalista, onde ao atraso econômico se junta um Estado desmesuradamente grande que se intromete aonde não deveria se intrometer, e faz pessimamente o que deveria fazer.
Este Estado, descendente do Estado português, parece ainda cultivar aquele tipo de despotismo burocrático, o qual torna todo um povo refém do funcionalismo público que, armado de leis ultrapassadas e estapafúrdias, e hábil no manejo de regras, se torna o rei dos guichês e das filas, estes instrumentos de tortura estatais. Para complicar, os funcionários são estáveis e, portanto, tanto faz que sejam bons ou maus funcionários. Afinal, não podem ser demitidos e, assim, exercem todo o seu poder sem nenhum obstáculo, cabendo ao povo obedecer-lhes e sustentar-lhes.
Evidentemente, existem excelentes funcionários públicos, zelosos de suas tarefas, cônscios de suas obrigações, e justamente são apenas estes que deveriam permanecer nos cargos. Mas não parece ser esta a opinião das ditas esquerdas, que no Congresso desenvolvem a política do contra. São contra o governo, e se isso implicar em ser contra os interesses do povo, o povo que se dane, porque seu lema parece ser o seguinte: se não posso fazer, o outro também não fará.
Mas Brasil e Hong Kong não têm nada a ver, é claro, enquanto raça, língua, religião ou capitalismo. Nosso capitalismo está para o deles como nossa língua. E se fomos colonizados por portugueses, a influência da Grã-Bretanha foi decisiva para que a pequena Hong Kong se transformasse de uma ilha estéril numa ilha de prosperidade. E hoje, depois de ter sido 156 anos colônia britânica, Hong Kong se configura como o sétimo maior exportador do mundo, ostentando a segunda renda per capita mais elevada da Ásia (US$ 27,5 mil anuais).
Naturalmente, as esquerdas podem argumentar que estou equivocada, porque depois de todo esse tempo a Hong Kong que encarna o espírito do capitalismo moderno voltou a pertencer ao ‘‘império comunista chinês’’. Mas recordemos um pouco de história: na guerra do Ópio (1840-42) entre a China e países europeus, estes foram os vencedores. Em janeiro de 1841, um capitão de nome Charles Elliot enviou uma mensagem a Sua Majestade, em Londres, dizendo que havia feito um acordo com o imperador chinês Qishan. Neste acordo, o imperador cedia a insignificante ilha de Hong Kong à Grã-Bretanha. Sua Majestade achou o acordo bastante infeliz, e o pobre capitão perdeu a patente, ficando ainda sob suspeita por ter realizado um negócio tão pífio para sua pátria. Em 1898, firmou-se o acordo de cessão de Hong Kong e da península de Kowloon por 99 anos, ou seja, até 1997, sendo por força desse acordo que Hong Kong voltou a integrar-se à China.
Será, então, que esse acontecimento deve ser comemorado como uma vitória do comunismo para alívio das viúvas de Marx? Evidentemente que não e, inclusive, recorde-se a Declaração Conjunta de 19 de dezembro de 1984, firmada entre a Grã Bretanha e a China, que define o compromisso exigido pela então primeira-ministra Margaret Thatcher. Segundo esse compromisso, mesmo depois de voltar a pertencer à China, Hong Kong permanecerá por 50 anos como uma Região Administrativa Especial, com poderes Executivo, Legislativo e Judiciário próprios e autonomia para tudo exceto defesa e relações exteriores. Dai dizer-se ‘‘um país, dois sistemas’’. Mas qual deles prevalecerá ao longo do tempo?
Para Thomas L. Friedman (The New York Times), ‘‘talvez haja um país, um sistema, e esse sistema a longo prazo vai parecer-se mais com Hong Kong do que com a China atual, pois Hong Kong é o vigoroso modelo para qualquer cidade chinesa. Ou então a China, com sua corrupção crônica e a ausência do império da Lei, vai finalmente dominar Hong Kong; nesse caso, haverá o que o redator de política exterior John Chipman chama de ‘um país, nenhum sistema’’.
Mas Friedman não tem dúvida e afirma que é mais fácil Hong Kong dominar a China. Realmente, é sintomático o coro de chineses a cantar a letra do popular Ai Jing: ‘‘Hong Kong, Hong Kong, o que ela significa?/ Leve-me para esse mundo maravilhoso./ Dê um passaporte a essa moça.../ Venha, 1997, para que eu possa partir para Hong Kong’’.

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