A realidade no Brasil, hoje, é a coexistência do controle relativo da inflação com a perda de um milhão e 500 mil postos de trabalho, desde a implantação do Plano Real, em julho de 1994. Portanto, é o convívio do bem com o mal.
Nesses quase três anos, o número de brasileiros subiu cerca de 5% e o crescimento nacional ficou por volta de 4%, agravando-se, ainda mais, o déficit de empregos. Oficialmente, a situação dos pobres melhorou um pouco, mas, em termos reais, eles ficaram mais longe dos ricos.
Pois nesse quadro, vive-se a expectativa de grandes emoções. Nos próximos dias, a estatal mais rica, mais eficiente e mais rentável, a Vale do Rio Doce, será posta à venda. Amanhã ou depois, o Comitê Olímpico Internacional decide se o Rio de Janeiro fica, ou não, entre as cidades pré-selecionadas para sediar as Olimpíadas de 2004.
Além dessas questões, emocionalizadas pela mídia, existe a CPI do Senado, que investiga o caso dos precatórios. O povo não sabe direito o que é isso, mas intui que é outro rombo no Tesouro.
Também chocante para os brasileiros, pois o Brasil acabou envolvido politicamente pelo tema, foi o anúncio, assustador, da clonagem de uma ovelha, em laboratório. O cientista político americano Thomas Skidmore explorou tal fato, em relação ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Tornada possível a reeleição de FHC, sob o argumento de bom desempenho no governo, Skidmore sugeriu, com ironia, que os brasileiros, para não mudarem as regras do jogo político, encomendassem uma duplicata do presidente. Que idéia! Afinal, passou-se aqui o filme de Schaffner, ‘‘Meninos do Brasil’’, em que se tramava fazer não um, mas vários clones de Hitler.
Ante a expectativa de tais emoções e apreensões, o País esquece as suas dificuldades, citadas acima, e outras, como os 16 milhões de aposentados com aposentadorias congeladas; os 10 milhões de servidores da União, Estados e municípios sem reajustes de salários; o crescente ingresso de adolescentes no tráfico de drogas, por falta de empregos urbanos; a questão dos sem-terra; a falta de políticas sociais; endividamento externo e interno etc.
Em meio a isso tudo, o que se faz de concreto, para dar jeito ao país, além da CPI dos precatórios? Quase nada. O Brasil está parado. O governo espera realizar as reformas, que julga essenciais, depois que o Senado aprovar a reelegibilidade de FHC. Enquanto isso, faz ou estimula críticas ao Judiciário. O Senado e a Câmara, com novos dirigentes, estão semiparalisados ao peso castrador das medidas provisórias do Executivo. Mas os problemas adiados ou esquecidos estão aí, sob emoções e apreensões paralisantes, suspensas no ar, prestes a explodir. Só então o Brasil volta à realidade. Aí, do jeito que o País está, talvez seja tarde ou será Páscoa e tudo pára de novo.

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