Um pacto para a produção
O ministro da Agricultura e Abastecimento, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, recebeu ontem, em Brasília, das mãos de agricultores, empresários agroindustriais e do governo do Paraná um protocolo de intenções inédito, em que o segmento industrial garante o preço mínimo de R$ 10 para a saca de 60 kg de milho. Mais que um seguro de preço destinado a incentivar os produtores agrícolas a se manterem na atividade, o protocolo marca uma evolução no relacionamento entre todos os elos da cadeia agroindustrial, que têm no milho o seu ponto comum.
Para ser levado a sério e vigorar, o protocolo de intenções foi criado de maneira responsável, com a simplicidade que caracteriza as boas idéias. Sem pedir favores do governo, todo o segmento aguarda apenas o lançamento de contratos de opção por parte dos responsáveis pela política agrícola nacional para confirmar o entendimento que vai garantir o bom desempenho da agroindústria brasileira. Estamos falando de um mecanismo moderno e sem vícios, baseado em leis de mercado, que em nada lembra os favores recebidos pela aristocracia rural brasileira em outros tempos.
Tal compromisso, assinado pelas principais entidades agroindustriais do Paraná, marca uma mudança de postura destes segmentos. Por um lado, o setor industrial se mostra maduro o suficiente para deixar a inércia de lado, e perceber que o papel de quem depende de insumos para alcançar competitividade é desenvolver alternativas para fomentar a sua atividade. No outro extremo, o setor agrícola entra em uma nova realidade no tocante à cultura do milho, em que será possível desenvolver projetos de médio prazo, por conta do entendimento protocolado com seus parceiros industriais destinado a garantir a segurança de preços mínimos, indispensáveis para a atividade rural.
A expectativa é que tal cenário, forjado ao longo de anos de experiência, alguns deles frustrantes em decorrência da falta de política agrícola para este grão, passe a orientar a agricultura paranaense, que hoje vive a possibilidade de se tornar mais estável do que jamais foi. Tudo isso porque os avicultores, suinocultores, cooperativas e agricultores se uniram em um projeto de coragem, depois de conviverem com frustrações decorrentes de preços baixos ou altos demais para o milho, simplesmente pela inexistência de um mecanismo regulador do mercado.
Entretanto, todo o esforço desenvolvido pelo setor produtivo do Paraná pode dar em nada se o governo federal não respeitar o timing típico da agricultura. Precisamos que os contratos de opção sejam disponibilizados ainda este mês, pois os agricultores precisam receber esta sinalização para se decidirem se compram sementes de soja ou milho.
Vale lembrar que a possibilidade de ganhos interessantes com a soja vem motivando preocupação de que muitos produtores abandonem a cultura do milho. Tal procedimento fatalmente faria os preços deste cereal subirem na próxima safra, causando prejuízos a todos os segmentos que utilizam o milho como insumo. O efeito final seria a redução na produção de carnes, queda nos níveis de emprego e de geração de riquezas em todo o Estado, cuja economia essencialmente agroindustrial é muito sensível a estes humores.
Sabemos que o governo federal pretende lançar R$ 2 bilhões em contratos de opção para todas as culturas da safra de verão. Porém, nada adiantará se estes recursos chegarem ao mercado depois que a descrença se instalar no setor agrícola, tornando o milho uma matéria-prima escassa em futuro próximo e certamente difícil para toda a economia local.
Talvez o maior risco de toda esta situação é o fato de que uma eventual escassez deste cereal vai obrigar a agroindústria local a se abastecer de outros mercados, preferencialmente os EUA e a Argentina, hoje dominados pela produção transgênica. Este quadro certamente cairia como uma ducha de água fria nas vendas da produção de carnes brasileiras para o exterior, cujas vendas de frango cresceram 68% somente para a União Européia, que não tem observado os transgênicos como uma alternativa viável.
Tudo isso faz do protocolo de intenções desenvolvido por todos os segmentos que têm no milho o seu ponto comum, muito mais do que qualquer iniciativa destinada a garantir o crescimento de um setor isolado da economia estadual. Mais que isso, essa garantia feita no preto no branco é o começo de um novo modelo destinado a estabilizar o setor agrícola e industrial do Paraná.
- PAULO MUNIZ é presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar)





