A história das frentes de colonização é plural. Permeiam mitos e relatos épicos. Documentos e mapas esquecidos do Paraná, das décadas de 1920 e 1930, trazem novas evidências de que, anos antes do início das atividades da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), uma outra companhia havia iniciado a demarcação e venda de terras nas margens do Rio Pirapó.
Um mapa da situação de terras de propriedade da CTNP foi publicado em 1930. Nele constavam duas "Estradas de automóveis". Uma acompanhando a ferrovia projetada a partir de Cambará e outra no vale do Rio Pirapó. Esta última era uma picada aberta pela Companhia Marcondes de Colonização de São Paulo.
Em meados da década de 1920, um inspetor de terras do governo do Paraná foi enviado à região para avaliar "com cuidado e critério" a situação das áreas devolutas, em litígio, denominadas glebas Pirapó e Bandeirantes. Parte das terras já havia sido parcelada e vendida pela Companhia Marcondes.
Visitando a linha Sorocabana, o inspetor se surpreende com os avanços encontrados no Estado de São Paulo. A Companhia Marcondes, proprietária de 500 mil hectares entre Regente Feijó e Presidente Wenceslau, havia fundado os núcleos coloniais de Anhumas, Montalvão, Brejão e Santo Anastácio entre outros. "O serviço de demarcação de lotes é perfeito, obedecendo a todas as prescripções de technica e das necessidades topographicas e hydrograficas". Ao longo da ferrovia "as estações são verdadeiros núcleos urbanos das respectivas colônias", comentou. Teriam sido instaladas oito mil famílias em cinco anos. Da descrição pode-se concluir que, a Marcondes já dominava o método de colonização através da criação de núcleos ao longo da ferrovia e estações.
A Marcondes havia construído também uma estrada de 93 quilômetros, "perfeitamente executada e de boa manutenção", entre a estação Presidente Prudente e as barrancas do Rio Paranapanema, na altura das ruínas de Nossa Senhora do Loreto. Permitia trafegar o trecho em três horas e meia. Do outro lado do Paranapanema, na margem direita do Rio Pirapó no Paraná, havia sido aberta uma estrada de 15 quilômetros e desmatados outros 50. Na margem esquerda, por sua vez, foi aberta uma picada, de cerca de 115 quilômetros, atingindo o divisor de águas dos rios Ivaí e Pirapó. Serviria para os necessários estudos de um ramal do contrato de concessão de ferrovia. Chegava até um local próximo onde hoje é a cidade de Maringá. O inspetor concluiu então que a Companhia Marcondes "estava aparelhada para promover intensa colonização no nosso Estado".
Quanto à Companhia de Terras Norte do Paraná, assinado o contrato de compra de terras devolutas em outubro de 1925, a primeira incursão para reconhecimento de terras ocorreu somente em 1927. Partindo da estação de Paraguassu Paulista na linha Sorocabana, Herman Moraes de Barros chega inicialmente em Jatahy. A partir dali, a expedição se orienta pela bacia dos ribeirões Três Bocas e Cafezal, até um local que imaginou ser afluente do Ivaí.
Mais conhecido é o relato épico da primeira caravana da CTNP liderada por George Craig Smith. Em agosto de 1929, parte de Cambará rumo a Jatahy. Na manhã seguinte, atravessa o Rio Tibagi e segue um "picadão escuro, barrento e cheio de toras e buracos" onde "os burros assustados que derrubavam as cargas procuravam ganhar as picadas laterais que se encontram pelo caminho". Chega nos limites das terras do empreendimento no final da tarde do mesmo dia. O ritmo da expedição e da caravana permite confirmar a preexistência de caminhos de nativos e tropeiros no então denominado "sertão desconhecido".
Não se pode, portanto, apontar a Companhia de Terras Norte do Paraná como inovadora e única. O silêncio sobre os feitos da Companhia Marcondes e o destaque dado à colonização pela CTNP é uma história que veio sendo habilmente construída. Inicialmente pelas publicações da própria Companhia de Terras e, depois, por correntes de pesquisadores que acreditavam nessa versão de genialidade e empreendedorismo pioneiro. Um outro Norte.

HUMBERTO YAMAKI é professor e coordenador do Laboratório de Paisagem da
Universidade Estadual de Londrina

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