Porto Alegre, 25 a 30 de janeiro de 2001, Fórum Social Mundial: 17 mil pessoas inscritas, 122 países com delegações, 1,7 mil jornalistas cobrindo para mais de 300 veículos de comunicação, 155 prefeitos e centenas de parlamentares de 29 países. Estes números demonstram a importância e a representatividade da Babel social que se propôs a discutir a viabilidade da construção de um mundo calcado em solidariedade e justiça social.
A força do Fórum de Porto Alegre se deve a seus organizadores: centenas de pequenas ONGs, que convivem na pluralidade, e a uma cidade que optou pela participação popular como a sua principal marca. Os resultados desta mobilização já foram sentidos durante o evento. A grande presença da mídia e o desconforto do Fórum Econômico de Davos (Suíça) demonstram que a pauta social defendida em Porto Alegre está colocada na agenda mundial.
O ‘‘fenômeno ONGs’’, iniciado no fim da década de 70, passou por uma transformação de atitude que teve no Fórum Social Mundial o seu cume. Esta transformação foi sentida pela primeira vez nos protestos de Seattle. Aquele momento já apontava que estas organizações precisavam ter consciência que, para atingir os seus objetivos originais como a defesa ambiental, o fim da exploração de mão-de-obra infantil, não aos transgênicos, proteção de culturas regionais, precisavam influenciar a política socioeconômica global.
A globalização sem discussão ética era o novo leviatã de Hobbes. Os protestos de Seattle disseram: ‘‘Não queremos este mundo.’’ Já em Porto Alegre, o recado foi: ‘‘Queremos outro mundo.’’ Esta mudança de atitude está clara quando vemos a afirmação de Ignacio Ramonet na 1ª página da última edição do ‘‘Le Monde Diplomatique’’ (jornal francês dirigido por Bernad Cassen, coordenador do Fórum Social Mundial).
Diz ele: ‘‘(O Fórum existe) não para protestar, como em Seattle, Washington, Praga e outros lugares, contra as injustiças, as desigualdades e os desastres que provocam, um pouco por toda parte do mundo, os excessos do neoliberalismo. Mas tentar, desta vez com espírito positivo e construtivo, propor um quadro teórico e prático que permita vislumbrar uma mundialização de tipo novo, que afirme que um outro mundo, menos desumano e mais solidário, é possível.’’
Este avanço das ONGs também influenciou os políticos de esquerda em todo mundo. Hoje há uma certa bioesquerda, e temas como o esgotamento dos recursos naturais do Planeta, os limites do progresso tecnológico ou a bioética, têm tanto destaque como a defesa dos direito dos trabalhadores e a melhor distribuição de renda.
Ao término deste primeiro Fórum Social se nota a interação entre a utopia da esquerda com a ação concreta das ONGs em defesa do mundo. Porto Alegre é a capital não só dos gaúchos mas agora também a capital ‘‘do outro mundo possível’’.
Outra atividade que aconteceu simultaneamente ao Fórum foi o Encontro de Parlamentares de todo o mundo. Mais de 29 países mandaram representantes. Deste encontro, uma carta apontou alguns compromissos comuns entre os parlamentares, destacando-se a rediscussão da dívida externa do terceiro mundo e a luta pela implementação da Taxa Tobin, uma idéia para solucionar a questão da distribuição de renda no mundo. A taxa propõe que 1% das transações financeiras internacionais seja taxada e o dinheiro arrecadado seja remetido para um fundo mundial de combate à pobreza.
As 400 oficinas, juntamente com os encontros que ocorreram, proporcionaram a milhares de pessoas trocar idéias e experiências. Davos e seu Fórum econômico tiveram que ouvir e falar com o planeta que tentam ignorar, graças a insistências de homens e mulheres do mundo que não acreditam no inevitável, mas crêem no livre arbítrio e na solidariedade humana.
- ANDRÉ PASSOS é advogado, vereador e vice-líder da bancada do PT na Câmara de Curitiba
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