Um operário presidente
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de outubro de 2002
Gilberto Jordão 
Há uma crise profunda e generalizada na sociedade brasileira. Essa crise é, simultaneamente, econômica, social, cultural e política. O grande desafio para o novo governo, procede da insatisfação radical da sociedade quanto ao salário, à segurança e à falta de emprego, combinado ao protesto que vem das cidades somando-se com o inconformismo que irrompe no campo.
O futuro presidente e seus auxiliares deverão dar um novo rumo à barca desgovernada há anos. Chegamos a um grande momento da política nacional. Os de baixo se recusaram a obedecer o comando dos de cima, ou seja, elegeram um homem do povo. O ocorrido foi um paradoxo de um golpe de Estado.
A classe dominante se encontra, portanto, em uma encruzilhada. As tentativas anteriores de ruptura falharam porque foram manipuladas pelo atual esquema de poder que comanda o governo. Impõe-se, pois, passar por cima dele e superá-lo. Foi, justamente, o que aconteceu. O atual sistema manipulou, enrolou, mentiu, desfez das classes sociais. Essa mesma classe deu a resposta.
Doravante, o presidente eleito deve ter coragem para ir além do que foram os presidentes anteriores. Brasília está esperando Lula de mãos espalmadas, bem como os ocupantes dos cargos de confiança, em seus mais de 46 mil órgãos públicos, todos à espera de uma renegociação, pois as maiorias dos cargos são de padrinhos políticos, ou seja, cargos leiloados entre os parlamentares e o executivo. Agora chegou a hora da ``onça beber água``.
Existem perto de 5.000 postos de trabalho, dentro do sistema governamental, que será disputado no ``tapa`` entre os interessados, pois são os postos mais cobiçados. Dentre os 5.000, existem cerca de 600 cadeiras a serem ocupadas por quem lidará, exclusivamente, com o dinheiro da Nação. Sendo, dessa forma, os cargos que inspirarão maiores cuidados, desse governo que assumirá seus trabalhos a partir de primeiro de janeiro de 2003.
Lula estará lidando com profissionais que sabem onde estão os postos mais cobiçados. O PT elegeu uma bancada fantástica, mas, sozinho, não conseguirá aprovar, absolutamente, nada.
Lula terá que contar com o apoio dos ``300 picaretas`` - como ele mesmo dissera há algum tempo -, para que seus projetos possam ser aprovados, para o bem da Nação. Essa aliança será fundamental na mediação espontânea, organizada e institucionalizada.
Há muito, os partidos de esquerda querem acertar seus ritmos, unindo-se contra o ``inimigo``. Existem divergências, surgidas de experiências histórias negativas, dentro do próprio PT. Há que se ter parcimônia e saber administrar tais divergências. Mas, essa evolução ideológica de aliança só será possível caso haja uma distribuição de cargos que convençam as partes interessadas.
A eleição de Lula, como presidente, só foi possível com a junção de vários partidos. Há a necessidade de se manter tal metodologia para alcançar o êxito. Caso não ocorram tais alianças, o governo do PT cairá na vala comum dos outros, será o caos.
Os resultados já apareceram. O PT perdeu em alguns estados e em muitos municípios, onde existem as administrações dos petistas. Casos específicos foram os resultados ocorridos em Londrina onde Serra fez 131.760 e Lula 106.260; em Maringá, Serra fez 82.238 contra 75.580 de Lula; e em Sarandi, 17.346 para Serra e 16.419 para Lula.
Isso se deu porque os trabalhadores, dos assalariados aos excluídos, bem como a pequena burguesia, entenderam que as promessas feitas pelos respectivos prefeitos não foram cumpridas ou não atenderam as expectativas desejadas.
GILBERTO JORDÃO é professor universitário


