Um oceano entre os brasis
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Gaudêncio Torquato 
Uma onda de perplexidade toma conta do corpo social. E a razão é bem plausível: dois países estão se confrontando com muita força. De um lado, o Brasil da estabilidade e da cesta básica barata. Governado por um dos presidentes mais preparados de nossa história, o Brasil faceiro, otimista e promissor tem tudo para se transformar numa potência do próximo século. De outro lado, está o país da cultura fisiológica, da compra de votos de parlamentares, da violência desmesurada das polícias, do tédio e dos vícios das gangues urbanas, dos movimentos sociais organizados e da insatisfação das classes sociais. Como um país pode ter duas bandas tão dispares e distantes?
Algumas respostas podem ser aventadas. Em primeiro lugar, não se questiona o feito de natureza econômica que alçou o Brasil à condição de país emergente no cenário mundial. Questiona-se, isso sim, a estancagem que está jogando o parque social e a infra-estrutura econômica do país num estado de quase completa inanição. Os estabelecimentos hospitalares estão completamente deteriorados e desequipados. As estradas estão esburacadas. A assistência social se assemelha a uma fila que aguarda horas pela escassa cesta básica. Ações profundas são esquecidas. A educação continua a esperar pela revolução prometida pelo festejado ministro da Educação, Paulo Renato.
No setor econômico, o desânimo é geral. Industriais lamentam a lentidão das reformas constitucionais. Comerciantes balbuciam um choro amargurado contra os altos juros e as restrições ao crédito. Funcionários públicos gritam afinados contra um governo que lhes paga os salários e que, agora, quer lhes tirar vantagens e privilégios. Governos estaduais, quebrados, correm a Brasília à cata de migalhas para realizar poucas obras, algumas de evidente caráter eleitoreiro. Policiais militares calibram o alvo dos cassetetes e revólveres, atirando para matar, na esteira de uma frustração regada por maus salários, corrupção desvairada e pressão dos grandes centros. Classes médias, antes ciosas de seus ornamentos de moda e ritos de lazer, e cultura, recolhem seus badulaques, na frustração de que começam a perder poder de compra e prestígio.
Um cheiro de coisa feia invade o ar enquanto a passividade assume, nas pessoas, a espessura de carcaça de rinoceronte. Ninguém sente mais nada, porque as coisas boas estão indo embora com muita facilidade. A poesia não tem mais a graça antiga. A dor, aquele sentimento que castigava corpos e corações, de tão frequente, está se tornando algo insensível, como o gelo duro que enrijece os dedos. Depois de algum tempo, já não é mais sentido. Os consultórios psicológicos e psiquiátricos só não estão mais cheios porque os clientes começam a contar moedinhas. Os ricos, que nunca olharam para a dimensão das compras, agora já fazem fezinha nas loterias.
Este é o país real, um pedaço que respira estabilidade e que deposita esperanças no fututo, porém despedaçado por angústias acumuladas, tristezas multiplicadas, movimentos organizados por terra e comida; um território onde corre sangue, muito sangue, pelas ruas dos grandes centros, e onde desce o tédio, essa cozinha meio indefinida que se abate sobre a alma de jovens, que procuram agitar neurônios dormentes incendiando mendigos e índios. Na esquina, ali bem pertinho, está o outro Brasil, aquele de Brasília, com os palácios soberbos, que escondem em sua exuberante arquitetura a engenharia do caos e do maquiavelismo, a malha da corrupção e das recompensas.
Quem anda pela cara feia do Brasil tem medo e exige insegurança. A estabilidade não é suficiente para mascarar a falta de ordem e o sentido de autoridade, que se fazem cada vez mais precários. Quem passeia pela lindeza do Brasil festivo e locupletado de benesses está montado na ambição. Entre um Brasil e outro, espraia-se um oceano de dúvidas, ambiguidades e muita perplexidade. Navegar nele, sem ânsia de vômito, é um exercício para os mais fortes. Ou os mais poderosos.


