Um novo Lula
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de setembro de 2002
Gilberto Jordão 
A esquerda está em extinção no Brasil. A prova viva está nas composições feitas recentemente, em busca do poder.
A aberração aconteceu, recentemente, com o abraço de tamanduá entre Lula e o ex-presidente da República, José Sarney.
Não somos contra o abraço em si, mas, sim, contra a aliança efetuada, porque como sabemos as duas figuras foram grandes opositores no passado, tanto nas palavras, bem como nas ações.
Foram feitas críticas contundentes entre os dois, num passado recente. Isso é do conhecimento de todos. O PT esculhambou os cinco anos do governo Sarney, mas agora diz que o Sr. ex-presidente foi um governo razoável. Ora, ou nós somos idiotas ou o PT está querendo nos fazer esquecer os meses angustiantes que passamos, com inflação que beirava aos 100% ao mês. Realmente, o PT perdeu sua identidade e sua postura ética.
Lula está vendendo a alma aos ditadores remanescentes e contrariando o pensamento dos seus militantes, no sentido de vencer a eleição a qualquer custo. Ele está caindo na vala comum dos outros. O PT ficará sem argumentos para combater seu adversário no 2º turno, pois essas alianças são malignas. Jamais poderá erguer uma só voz contra Ciro Gomes ou José Serra, pois o mesmo está se igualando a ambos. O PT já faz parte do mesmo saco de maldade.
O PT protagoniza o caso mais dramático de flexibilização das fronteiras ideológicas. Com o passar dos anos Lula escorregou, quase sem perceber, para o lado dos que ele tanto criticou no passado.
Lula é um homem modelado. Um novo produto pronto para ser vendido, como outro produto qualquer. Ele está sentindo o gosto da fama, por isso fez alianças e fará outras, caso haja necessidade.
O medo da população brasileira é ele fazer o mesmo que FHC, pedir para esquecer tudo o que dissera ao longo dos anos de militância como opositor. Como sabemos FHC pediu para esquecer o que escreveu, mas como Lula não escreveu livros e nem artigos científicos, ficará mais fácil porque não existe nada documentado, apenas palavras, pois como sabemos palavras são palavras e nada mais.
Suas palavras soaram, no passado, como bordões: ''Fora FMI'', Moratória já'', ''Não a especulação'', ''Somos contra as privatizações!''...
Lula tornou-se o cinismo dos outros políticos comuns. Não há como acreditar nesse homem que foi o único ícone de esperança dos brasileiros.
Fidel Castro, quando da revolução cubana, não fez aliança e parcerias com ninguém, apenas soube organizar seus militantes e seguidores para expulsar os exploradores da Ilha, ou seja, os EUA.
Não temos nada contra alianças. Mas o eleitor tem o direito de saber por que o Sr. ex-presidente, José Sarney, de uma hora para outra se tornou cidadão de bem para o PT, pois como sabemos o próprio PT já o acusou de ''grilagem'' de terras no Maranhão. Política, no Brasil, não é levado a sério mesmo.
O novo Lula, em seu terno refinado, pensa que não deve nada ao velho passado: sindicado, greves, protestos etc. Mas ele está enganado, pois é, justamente, esse passado que o projetou para os dias de hoje. Renegar o passado é como dizer: esqueçam o que eu escrevi, esqueçam o que eu disse, esqueçam quem eu fui, esqueçam meus ideais, esqueçam meus princípios, esqueçam as lutas que fizemos por um País mais justo e honesto...
GILBERTO JORDÃO, é professor universitário.


