Toda ação humana é, no início, um erro, um crime, disse Alexandre Kojève. Ela comporta qualquer coisa de milagroso, dizia Hannah Arendt. Quanto ao resto, a ciência estuda comportamentos. A universidade pública brasileira tem se comportado bem e agido pouco.

Temos nos deparado, nessa instituição, com problemas fiscais e ideológicos. O desafio é grande e sair da encruzilhada não tem sido fácil. De um lado, uma população cansada e crítica do serviço público brasileiro. Do outro, um governo federal apoiado no tripé do moralismo jurídico, política econômica liberal e visões de mundo reacionárias. De ambos, as universidades sofrem investidas políticas, econômicas e culturais. Cobram-nos mais eficiência, mais eficácia e, até, menos balbúrdia.

A isso, reagimos impensada, ainda que compreensivelmente. Primeiro, através de um moralismo pequeno-burguês de comprometimento com as formalidades do trabalho. Papéis, assinaturas, minutos cumpridos, detalhes e minúcias, tudo para nos aparentarmos sérios, úteis e atarefados. É uma espécie de proteção contra as ignóbeis acusações de que a universidade pública é locus de ociosidade perdulária.

Depois, através de discursos identitários, cujos chavões pautam um diálogo mouco e autorreferenciado, consequência da dificuldade em convencer a sociedade brasileira de que o conhecimento é algo que valha a pena.

A população tem todo direito, razão e dever em cobrar transparência da universidade. E é importante que tomemos a dianteira nas discussões para não ficarmos reféns de projetos incompetentes e de uma ideologização infantil.

Assumir esse protagonismo implica um projeto que rompa com o estabelecido e encare objetivamente a situação. Não convenceremos ninguém argumentando que tudo vale a pena pelo ensino público, gratuito e de qualidade. A população não cai mais nesse corporativismo travestido de interesse público. Essa lógica de entes da administração indireta das universidades federais chegou ao seu limite. Mesmo internamente, sermos executores de serviços estatais, coloca entraves inúmeros, por exemplo, às compras de equipamentos e investimentos em infraestrutura. Além disso, nos exige, a cada passo que damos, dentro e fora da instituição, recibos e declarações, quase sempre redundantes, para provar nossa inocência.

Ao mesmo tempo, esse mesmo estatuto jurídico garante uma ascensão na carreira desvinculada de critérios acadêmicos e um burocratismo que seduz os que têm gosto pelo controle. Bem comportada, a universidade tem aceito a devassa de seus processos internos em troca de uma estabilidade medíocre e constantemente ameaçada.

Falta autonomia, termo hoje usado para pleitear recursos aos governos e que hierarquiza as instâncias públicas. Conseguindo auxílio-moradia mesmo ganhando 20 vezes a média salarial brasileira, tem-se muita autonomia. Do contrário, estamos do meio da pirâmide do funcionalismo para baixo.

Convenhamos, nós, os brasileiros, merecemos mais transparência, racionalidade e princípios publicamente defensáveis. Como universidade, qual será o nosso papel? Uma defesa passiva e intransigente de interesses particulares? Ou o estímulo à incansável curiosidade sobre o mundo, ao desejo de transformar o dado e à formação profissional de jovens que realize suas aspirações pessoais de forma humana e cidadã?

Agir em direção a um modelo institucional que nos dê liberdade de estabelecer os meios e responsabilidade de atingir esses fins não pode prescindir de financiamento público. Qualquer cidadão o sabe, mesmo no centro do capitalismo mundial. Porém, é tolo considerar pecado o financiamento privado. As situações são inúmeras e complexas nas universidades e esse maniqueísmo tosco não lhes é compatível.

Sei que, hoje, propostas assim soam quase como crimes. Quiçá também como milagres.

DANIEL GUERRINI, professor do Departamento de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – campus Londrina

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